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A polilaminina regenera a medula espinal? É preciso deixar o método científico decidir

Substância deve trilhar o mesmo caminho de transparência e validação que as demais terapias

The Conversation

The Conversation|Walace Gomes Leal

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A polilaminina é uma substância em estudo como possível terapia para lesões na medula espinal.
  • Ainda não existem dados conclusivos, pois a pesquisa foi realizada apenas em cães e carece de validação científica rigorosa.
  • O uso inadequado da polilaminina pode causar riscos sérios aos pacientes, como neurotoxicidade e cicatrização inadequada.
  • É essencial que a polilaminina siga os métodos científicos e regulamentações para garantir a segurança e eficácia no tratamento de lesões na medula.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Medicamento é responsável por melhorar movimentos de pacientes com lesão na medula Paulo Pinto/Agência Brasil - Arquivo

O Brasil observa, atualmente, uma intensa divulgação sobre a polilaminina, substância ainda em estudo, frequentemente apresentada como uma terapia revolucionária e definitiva para a lesão da medula espinal.

É fundamental esclarecer que questionar tais afirmações não significa desmerecer a pesquisa ou a molécula em si, que pode, de fato, ter um potencial futuro.


No entanto, é necessário pontuar que, até o momento, os dados divulgados sobre a polilaminina referem-se a estudos realizados apenas em cães, sem publicações em revistas científicas de alto impacto ou revisão por pares que sustentem as alegações de cura.

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Faltam, portanto, algumas etapas para investigar os efeitos desejáveis e indesejáveis dessa substância.


A ciência exige que o entusiasmo seja temperado pelo rito, seguindo os protocolos rigorosos exigidos por agências reguladoras como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a FDA (Food and Drug Administration dos Estados Unidos) e a EMA (European Medicines Agency), garantindo a segurança dos pacientes submetidos aos procedimentos.

O método científico não é um obstáculo ao progresso da ciência nem às inovações na medicina, mas a sua única garantia real de segurança e eficácia.


Ele se baseia em um processo rigoroso de verificação que transformou a medicina moderna, permitindo-nos separar hipóteses promissoras ou terapias pseudocientíficas de tratamentos efetivos.

Como a neurociência avança

Historicamente, a neurociência viveu sob o dogma de um livro escrito pelo genial histologista e neuroanatomista espanhol Ramón y Cajal, ganhador do prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1906, que no início do século XX sentenciou que no SNC (Sistema Nervoso Central) “tudo poderia morrer, mas nada poderia ser regenerado”.


Essa visão determinista estagnou o campo por décadas, até que, nos anos 1980, Albert Aguayo provocou uma mudança de paradigma ao demonstrar que o problema não era a incapacidade intrínseca dos neurônios, mas o ambiente hostil da lesão.

Desde então, a ciência busca formas de tornar esse ambiente propício à reconexão nervosa.

Em uma revisão recente publicada no periódico Regenerative Medicine Reports, discuto abordagens que estão seguindo estritamente o método científico.

O conceito de relé neural, por exemplo, utiliza o transplante de células progenitoras neurais em matrizes de fibrina para formar novos circuitos que servem como uma “ponte” funcional, permitindo que os impulsos contornem a lesão.

Trabalhos seminais, como os de Paul Lu e Mark Tuszynski da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), nos Estados Unidos, em andamento desde 2012, demonstraram uma regeneração axonal sem precedentes em modelos de roedores e primatas. Publiquei com eles um artigo em 2019, detalhando os circuitos intrínsecos dentro do enxerto de progenitores.

Outra abordagem promissora é a pesquisa sobre os organizadores sinápticos artificiais, que são moléculas desenhadas para promover a formação de novas conexões (sinapses) entre neurônios sobreviventes, oferecendo uma via química para a recuperação da rede neural.

Mais uma frente de vanguarda é a estimulação elétrica subdural, técnica que reativa circuitos medulares dormentes abaixo do nível da lesão, permitindo que pacientes recuperem movimentos voluntários, de acordo com estudos recentes.

Questões a serem esclarecidas

A aplicação de substâncias como a polilaminina diretamente na medula espinal, considerando que é um polímero modificado, sem o devido respaldo científico e clínico, tem o potencial para riscos aos pacientes.

O ambiente da lesão é extremamente sensível. Uma injeção inadequada pode desencadear uma resposta inflamatória exacerbada ou neurotoxicidade, levando à morte de neurônios que ainda estavam funcionais.

Há também o perigo mecânico da formação de microtraumas que estimulam a cicatriz glial ou o surgimento de siringomielia (cistos na medula), que podem causar dor crônica e perda funcional progressiva.

Além disso, o crescimento axonal sem a orientação correta, algo que o relé neural e os organizadores sinápticos tentam controlar, pode resultar em conexões aberrantes, gerando dor neuropática intratável ou espasticidade severa.

Todos queremos que pacientes paraplégicos e tetraplégicos andem de novo e esta é uma das fronteiras mais desafiadoras e emocionantes da medicina, considerando que a desconexão catastrófica entre cérebro e medula induz diversas sequelas sensoriais e motoras.

No entanto, oferecer promessas sem o respaldo do método científico e de ensaios clínicos padronizados coloca em risco a integridade dos pacientes.

A polilaminina deve trilhar o mesmo caminho de transparência e validação das terapias supramencionadas. Somente respeitando o escrutínio científico e o rigor das agências regulatórias é que poderemos transformar a esperança em realidade clínica segura.

Devemos, portanto, permitir que o método científico e os resultados dos ensaios clínicos, duplo-cegos e randomizados, decidam o futuro da medicina regenerativa.

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Walace Gomes Leal recebe financiamento do Instituto de Saúde Cerebral- INCT CNPQ e OKA Hub - Sebrae Nacional.

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