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Desinformação e xenofobia vincula criminalidade nos EUA aos imigrantes e fomenta militarização das fronteiras

A narrativa de que imigrantes irregulares cometem mais crimes não encontra respaldo nos dados estatísticos de criminalidade dos EUA...

The Conversation

The Conversation|Do R7

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Nos últimos anos, as políticas de imigração dos Estados Unidos têm se tornado progressivamente mais rigorosas, sobretudo em relação aos imigrantes em situação irregular que atravessam a fronteira entre os EUA e o México.

De acordo com os resultados da pesquisa “Uma análise da estratégia de securitização de Trump (2015-2016)”, que realizei para a Revista Brasileira de Estudos de Defesa (RBED), a desinformação que associa esses imigrantes a maiores taxas de criminalidade e a uma suposta periculosidade social sustenta uma retórica securitária que legitima investimentos massivos em aparatos tecnológicos de vigilância e controle fronteiriço.


A narrativa de que imigrantes irregulares cometem mais crimes não encontra respaldo nos dados estatísticos de criminalidade dos Estados Unidos. Ao contrário, os dados mostram que esse grupo apresenta índices de envolvimento criminal inferiores aos da população nativa. Ademais, tais iniciativas não reduzem de forma significativa a imigração irregular como também contribuem para o aumento da mortalidade entre aqueles que tentam realizar a travessia.

Uma engenharia social de insegurança


Nos Estados Unidos, a percepção pública sobre imigrantes latino-americanos frequentemente reflete traços xenófobos enraizados e históricos. Estudo importante do Pew Research Center, de 2015, revelou que grande parte dos americanos acreditava que a presença desses imigrantes havia piorado a situação econômica do país e levado ao aumento dos índices de criminalidade.

Outros estudos sugerem que aqueles que compartilham essas visões são mais propensos a apoiar a construção de um muro ao longo da fronteira EUA-México ao invés de outras políticas relacionadas à imigração. Essa percepção negativa é agravada pelo atual clima de desinformação, que contribui para a disseminação de concepções errôneas sobre imigração nos Estados Unidos.


A construção desse muro na fronteira, altamente dispendiosa, foi uma das principais promessas políticas de Donald Trump em seu primeiro mandato presidencial, tornando-se o pilar de sua agenda migratória mais ampla durante sua presidência. Além disso, Trump exerceu influência significativa sobre a agenda política por meio do Twitter (agora X), disseminando desinformação e distorções sobre imigração e outros temas.

Como tem sido documentado por pesquisadores, diversas percepções negativas disseminadas sobre imigrantes envolvem graves distorções. Quando se trata de criminalidade nos Estados Unidos, por exemplo, há evidências crescentes de que imigrantes (documentados ou indocumentados) são menos propensos a cometer crimes do que cidadãos natos. Esse fenômeno é comprovado por dados que indicam que, desde 2012, a maioria dos crimes foi cometida por americanos natos.


Em âmbito nacional, a taxa de criminalidade entre imigrantes indocumentados tem sido historicamente baixa. Desde 1980, os imigrantes têm apresentado taxas de encarceramento menores do que os cidadãos nativos, um padrão que se mantém há mais de 150 anos. Mesmo assim, um número considerável de americanos ainda acredita que a imigração aumenta a criminalidade.

Desinformação associada à ideia de securitização

A desinformação não é o único fator que molda as percepções negativas sobre os imigrantes. Em pesquisa recente, identifiquei que o conceito de securitização, amplamente discutido em Relações Internacionais, ganhou relevância nesse debate. Esses conceito explora como certas questões são estrategicamente enquadradas como assuntos de segurança nacional ou ameaças, legitimando assim a adoção de medidas de emergência e excepcionais. Estudiosos argumentam que esse processo resulta em uma engenharia social da insegurança, na qual certos tópicos são repetidamente enquadrados como problemas de segurança para justificar políticas cada vez mais restritivas, o criando mais problemas.

A securitização tornou-se uma estratégia recorrente na política dos EUA, particularmente após os ataques de 11 de setembro de 2001. Esse processo envolve enquadrar a imigração como uma ameaça à segurança nacional, legitimando assim políticas restritivas e medidas de emergência. Isso se aplica diretamente à questão da fronteira entre os EUA e o México.

Desde a administração de Bill Clinton, o governo dos EUA adotou uma estratégia de prevenção por meio da dissuasão. Em outras palavras, a intenção é desencorajar a migração irregular, em vez de impedir completamente a entrada desses grupos no país. Esse modelo foi ainda mais ampliado durante o governo de George W. Bush e tornou-se um pilar central da agenda de Donald Trump. Obviamente, à medida que os migrantes são forçados a buscar rotas mais perigosas, suas vidas ficam mais expostas a riscos.

Essa estratégia (de dissuasão) fortaleceu o controle de fronteiras por meio de grandes investimentos em infraestrutura de vigilância e fiscalização, impulsionando os migrantes a optarem por rotas de travessia mais perigosas – uma política que contribuiu para o aumento das mortes de migrantes.

Consequências perigosas

Particularmente entre grupos que acreditam que a imigração agrava a criminalidade e prejudica a economia, há uma tendência a apoiar políticas de fechamento de fronteiras, como o muro na fronteira entre os EUA e o México. Ele exemplifica como a securitização e a desinformação caminham juntas na formulação da política de imigração.

Trump desempenhou um papel fundamental na definição da agenda política por meio das redes sociais, disseminando informações falsas e distorcidas sobre imigração. Suas declarações, amplificadas pela cobertura nas redes sociais, contribuíram para fortalecer a crença de que os imigrantes representam uma ameaça. Sua retórica, combinada com a disseminação de dados enganosos, não apenas distorceu a realidade da imigração nos Estados Unidos, mas resultou em políticas que aumentaram a precariedade dos migrantes e intensificaram a violência na fronteira.

O contexto mais amplo de insegurança é reforçado por algumas crises reais e outras fabricadas. Elas desempenham um papel central na construção da imigração como uma ameaça. Esse processo alimenta políticas restritivas, aprofunda a marginalização dos migrantes e sustenta uma visão distorcida da realidade da migração nos Estados Unidos. Períodos de instabilidade econômica, ataques terroristas e surtos de violência são frequentemente explorados para fins políticos, associando a imigração a ameaças iminentes. Essa “engenharia social da insegurança” legitima reforça um ciclo de exclusão: quanto mais os imigrantes são retratados como ameaças, mais justificativas surgem para restringir seus direitos e intensificar as medidas de controle nas fronteiras e sobre eles.

Além das consequências políticas e sociais, a securitização da imigração torna as suas condições de vida dessa população nos EUA cada vez mais precárias. A militarização das fronteiras e a criminalização da migração levam à separação de famílias, deportações em massa e à marginalização de comunidades inteiras.

Lauro Accioly Filho não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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