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Intervenção dos EUA na Venezuela não significa mudança de regime, mas sim perigo para a América Latina

Derrubar Maduro em troca da manutenção do regime chavista sob o custo da entrega do petróleo para os americanos indica que os EUA não...

The Conversation

The Conversation|Do R7

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A derrubada de Nicolás Maduro não significa uma mudança no regime chavista. Delcy Rodríguez, vice-presidenta de Maduro e, desde sábado à noite, presidenta interina no país, assumiu o governo com base nos artigos 234 e 239.6 da Constituição venezuelana. A Suprema Corte do país interpretou que Maduro está ausente temporariamente do governo. Rodríguez governará por 90 dias e sem obrigação de convocar novas eleições em até 30 dias, cenário que seria constitucionalmente obrigatório se houvesse reconhecimento de afastamento permanente sob o artigo 233. Seu período interino pode ser renovado pela Assembleia Nacional, de maioria chavista e presidida pelo seu irmão, Jorge Rodríguez, ex-vice-presidente de Hugo Chávez. Logo, quem detém o poder hoje na Venezuela são os irmãos Rodríguez.

Rodríguez foi reconhecida pelas Forças Armadas venezuelanas como presidenta interina e por diversos países, inclusive o Brasil. Em reunião do Conselho de Ministros no domingo (04), a estrutura de poder chavista parecia intacta. Isso reforça a possibilidade de Maduro ter sido entregue pelos militares em um acordo de Delcy Rodríguez com o governo Trump.


O jornal The New York Times afirma que o governo Trump escolheu Delcy Rodríguez como alternativa a Maduro por convencê-lo de que defenderia os investimentos americanos no petróleo venezuelano.

A descrença na democracia e na transição de poder é reafirmada em entrevista de Marco Rubio para a CBS, pois os Estados Unidos não buscam a mudança de regime na Venezuela e sim quem defenda seus interesses. Maria Corina Machado e Edmundo González foram rifados, com demonstração de que, atualmente, eles não possuem apoio dos Estados Unidos para assumirem o poder, e sim Delcy Rodríguez.


Trump parece nunca ter gostado de Maria Corina, e teria tido seu ego ferido por ela obter o Prêmio Nobel da Paz de 2025 que ele tanto desejava. O substituto de Corina para as eleições na Venezuela em 2024, Edmundo González, inclusive, solicitou publicamente para as Forças Armadas o apoiarem e assumir o governo que ele alega ter vencido nas eleições visivelmente manipuladas por Maduro.

Solicitar para governar significa não ter poder algum nas mãos. Para Trump, que não gosta de “perdedores”, os dois passam a imagem de fracos e incapazes de gerir seus interesses na Venezuela. Claro que o cenário pode mudar, especialmente se em algum momento a convocação de eleições for considerada na Venezuela ou novos ataques militares ocorrerem. Porém, se Delcy Rodríguez entregar o que Trump quer e eleições forem convocadas, a possibilidade do chavismo vencer as eleições, legítima ou ilegitimamente, e ser reconhecido por Washington, não pode ser descartada.


O que Trump quer da Venezuela?

Os Estados Unidos são autossuficientes na produção de petróleo leve, para produção de gasolina, e exportam-no, masdependem da importação do petróleo pesado viscoso para refinarem e suprirem sua demanda industrial e de diesel. O petróleo venezuelano é do tipo pesado, o mesmo que as refinarias americanas estão mais preparadas para operar e produzir combustíveis.


Sairá mais barato para os Estados Unidos explorarem o petróleo venezuelano, refinarem no Texas, Louisiana ou na Califórnia, baratearem os combustíveis e seguirem exportando o petróleo leve. Reformar refinarias sai caro, leva tempo e Trump não pode se dar a esse luxo. O republicano precisa baratear os combustíveis nos Estados Unidos e manter o custo de vida equilibrado para reduzir as suas chances de derrota nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro de 2026. Empresas americanas, para além da Chevron, a única autorizada a operar na Venezuela, serão beneficiadas, por isso a derrubada de Maduro.

Nunca foi democracia, sempre foi petróleo

Parte do argumento de Trump com base no Project 2025 é recolocar a indústria do petróleo no centro da produção energética e elevar seus lucros, por acusarem Biden de ter investido demais em energia limpa e redutora de lucros das petroleiras.

Ainda assim, o interesse de Washington parece ir além de gerir a produção do petróleo, gás e ouro venezuelano, controlando para quem ele é vendido e as influências estrangeiras na América Latina. A China, maior compradora dos combustíveis fósseis venezuelanos e uma das principais parceiras comerciais da região, é vista como ameaça para os Estados Unidos. NoProject 2025, a China é acusada por Washington, sem provas, de ser a financiadora de drogas na região, indicando a origem do argumento de Trump para prender Maduro como narcotraficante. Os Estados Unidos não se importam com as drogas que chegam ao país. O governo Trump não possui medidas para coibir a demanda por narcóticos, mas usa a guerra às drogas como meio para distanciar a China da América Latina e intervir na região.

México e Colômbia foram diretamente ameaçados por Trump no último final de semana como possíveis locais de intervenção futura. Governados por presidentes à esquerda, é de interesse de Trump derrubar esses mandatários e influenciar nas eleições de 2026 na Costa Rica, Peru, Colômbia e Brasil para que governantes de direita e ideologicamente subservientes a Washington sejam eleitos. Isso não é teoria da conspiração, faz parte do Project 2025, que está em andamento, mudando a relação que os Estados Unidos possuíam com a América Latina neste século e impondo novos desafios à nossa soberania e à nossa segurança hemisférica.

A intervenção militar nos Estados Unidos lança um novo paradigma para as forças armadas. Os Estados Unidos já não precisam invadir países, deslocar dezenas de milhares de soldados, arriscar vidas americanas e a popularidade do presidente que entra em guerra. Operações com drones e forças especiais se mostram bem-sucedidas, baratas e seguras. As baixas são consideravelmente reduzidas pelo lado americano e os objetivos são atingidos mais rapidamente.

Ainda que Maduro possa ter sido entregue por Delcy Rodríguez e militares venezuelanos, como o atual panorama sugere, a efetividade da ação militar de Washington demonstra que os países que não querem ter sua soberania atacada pelos Estados Unidos precisarão repensar suas defesas militares, parceiros estratégicos e a confiança interna e com vizinhos. Maduro caiu por estar isolado. Nenhum parceiro ou vizinho se mobilizou para ajudá-lo, independentemente de apoiarem-no ou não. Esse é um precedente perigoso e que Trump com certeza aproveitará para novas ameaças e intervenções, sejam elas militares ou não. Como os Estados Unidos não se interessam por democracia, O futuro para a América Latina parece sombrio.

Victor Cabral não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Entregar Maduro em troca da manutenção do regime chavista sob o custo da entrega do petróleo para os americanos indica que o pronunciamento de Trump à imprensa no sábado à tarde é verdadeiro: ele não se importa com a democracia na Venezuela e sim com o petróleo, o gás e o ouro, abundantes no país atacado.

( Entregar Maduro em troca da manutenção do regime chavista sob o custo da entrega do petróleo para os americanos indica que o pronunciamento de Trump à imprensa no sábado à tarde é verdadeiro: ele não se importa com a democracia na Venezuela e sim com o petróleo, o gás e o ouro, abundantes no país atacado. )

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