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Velas e incensos: quando o suposto ‘bem-estar’ contamina a casa

A exposição prolongada a velas e incensos tem sido associada à irritação das vias respiratórias

The Conversation

The Conversation|María Teresa Baeza Romero

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Queimar velas e incensos em casa pode aumentar a poluição do ar interno.
  • Ambos liberam poluentes nocivos, como partículas finas e compostos orgânicos voláteis.
  • O incenso é mais prejudicial que as velas, apresentando maior potencial oxidativo e associações com problemas respiratórios.
  • Reduzir o uso e melhorar a ventilação pode ajudar a minimizar os riscos à saúde.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O incenso é mais prejudicial que as velas, apresentando maior potencial oxidativo Reprodução/Pexels/J.P.I Madhuwantha

Acender uma vela perfumada ou queimar incenso costumam ser ações associadas ao bem-estar ou à calma.

Mas, do ponto de vista da química atmosférica, ambas implicam algo muito menos idílico: introduzir uma fonte de combustão dentro de casa. E isso não é recomendável, por várias razões.


Passamos cerca de 90% do nosso tempo em espaços fechados, onde os poluentes não se dispersam facilmente e podem atingir concentrações superiores às do exterior, mesmo quando o ar “parece” limpo.

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O que realmente acontece quando acendemos uma vela

Quando acendemos uma vela, o pavio não é o combustível. Sua função é transportar a cera derretida até a chama. O que realmente queima é a cera, que na maioria das velas comerciais é parafina, um derivado do petróleo — embora também possa ser cera vegetal ou de abelha.


Esse processo de combustão nunca é completamente limpo. Além de dióxido de carbono e vapor de água, são liberadas partículas de tamanho muito pequeno (PM2,5 e ultrafinas) e uma mistura complexa de poluentes gasosos, como monóxido de carbono, formaldeído, acetaldeído e COV (compostos orgânicos voláteis).

Em ambientes pouco ventilados, as concentrações dessas partículas e gases podem aumentar rapidamente, atingindo valores comparáveis aos de ambientes urbanos com má qualidade do ar, especialmente quando a combustão é instável ou o pavio é muito longo.


O incenso, uma fonte de emissões

O incenso costuma ser visto como uma alternativa “natural” às velas perfumadas. As evidências científicas, no entanto, indicam que seu impacto sobre a qualidade do ar interno é, em geral, maior e mais preocupante.

Durante a sua combustão, o incenso emite grandes quantidades de partículas finas e ultrafinas, além de monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e numerosos COVs aromáticos.


Um resultado especialmente relevante é que aproximadamente 4,5% da massa do incenso se transforma em partículas que podemos respirar.

Isso é aproximadamente quatro vezes mais do que um cigarro. Assim, o incenso é uma das principais fontes de poluição do ar interno em residências de não fumantes.

Nem todas as partículas são iguais: o potencial oxidativo

Durante anos, o risco à saúde foi avaliado principalmente com base na massa de partículas presentes no ar. Hoje sabemos que isso é insuficiente.

Um parâmetro-chave é o potencial oxidativo, que descreve a capacidade das partículas de danificar nossos tecidos pulmonares.

As partículas provenientes do incenso apresentam consistentemente um elevado potencial oxidativo, comparável ou inclusive superior ao das partículas associadas ao trânsito urbano.

As velas também emitem partículas com atividade oxidativa, especialmente quando são de parafina, perfumadas ou queimam de forma instável.

Mas seu potencial oxidativo médio costuma ser inferior ao do incenso, que gera aerossóis mais reativos e com maior capacidade de induzir estresse oxidativo respiratório.

O papel das fragrâncias: aroma complica a química

O tipo de cera influencia as emissões, mas não é o único fator. As fragrâncias, tanto naturais quanto sintéticas, introduzem novos compostos no coquetel da mistura emitida.

Durante a combustão, muitos perfumes liberam COVs reativos que podem se transformar em outros poluentes, como aldeídos — compostos orgânicos voláteis irritantes formados por oxidação — e aerossóis orgânicos secundários — partículas microscópicas geradas no ar a partir de reações químicas —, o que aumenta tanto a quantidade quanto a reatividade dos poluentes presentes no ar interno.

Assim, uma vela comercializada como “natural” pode deixar de sê-lo, do ponto de vista da química do ar, se for intensamente perfumada.

Evidências sobre efeitos na saúde

A exposição contínua aos poluentes emitidos por velas e incensos tem sido associada a irritação das vias respiratórias, agravamento da asma e diminuição da função pulmonar, especialmente em crianças e pessoas com patologias respiratórias pré-existentes.

Em regiões onde o uso de incenso é diário e prolongado, diversos estudos epidemiológicos encontraram associações com doenças respiratórias crônicas e, inclusive, câncer de pulmão, o que reforça a preocupação com esse tipo de exposição doméstica.

O que é pior para a saúde: uma vela ou o incenso?

Se compararmos ambos em condições semelhantes de uso, as evidências são unânimes: o incenso emite uma quantidade muito maior de partículas com maior potencial oxidativo, libera uma mistura gasosa mais complexa e reativa e conta com maior respaldo epidemiológico de efeitos adversos.

Isso não significa que as velas sejam inofensivas, mas que, em termos gerais, o incenso representa a fonte mais agressiva de poluição do ar interno entre os dois.

Respirar melhor começa com pequenos gestos

Em casa, costumamos julgar o ar pelo cheiro ou pelo que vemos. Se não cheira mal e não há fumaça à vista, presumimos que ele está limpo.

Mas a poluição mais relevante em ambientes internos é invisível e se acumula aos poucos, sem aviso prévio.

A química nos lembra algo essencial: o bem-estar não se queima nem se cheira, ele se respira.

Por isso, reduzir a exposição não passa por proibições radicais, mas por gestos informados e sustentáveis.

Usar velas e outros ambientadores de combustão ocasionalmente, limitar sua duração, manter as mechas curtas e a chama estável, ventilar bem durante e após o uso, priorizar velas sem perfume e evitar o uso habitual de incenso em ambientes internos são decisões simples que fazem a diferença.

Pequenas mudanças no dia a dia podem reduzir significativamente a quantidade de poluentes que inalamos. Porque cuidar do ar interno não significa abrir mão do conforto, mas entender o que estamos respirando e quando vale a pena fazê-lo.

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Esta publicação faz parte do projeto de P&D&I PID2022-139724OB-I00, financiado pelo MICIU/AEI/10.13039/501100011033 e pelo FEDER, do projeto SBPLY/ 23/180225/000194, financiado pela Agência de Pesquisa e Inovação de Castela-La Mancha, cofinanciado pela União Europeia, e do projeto 2025-GRIN-38334, financiado pelo plano de pesquisa da própria UCLM e cofinanciado com recursos do FEDER.

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