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Bebê agredida e criança trocada por drogas em BH: impactos na infância e sinais de alerta

Após dois casos alarmantes envolvendo crianças, psicóloga explica traumas que as vítimas podem desenvolver e o que observar

Minas Gerais|Arnon Gonçalves e Cler dos Santos, do R7

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A bebê foi agredida pelo pai com um soco no olho
A bebê foi agredida pelo pai com um soco no olho Reprodução/RECORD Minas

Um pai tentou vender o filho por R$ 10, para comprar drogas, e outro é suspeito de agredir o rosto de uma bebê de cinco meses. No segundo caso, familiares relatam que já haviam percebido um comportamento agressivo do autor, antes mesmo do ocorrido.

Os dois episódios, que foram registrados neste final de semana, em Belo Horizonte, levantam questões sobre o quanto situações como essas podem traumatizar e prejudicar o desenvolvimento das crianças. Mas, também, como parentes podem observar sinais e, por vezes, intervir para impedir que casos assim aconteçam.


Pai tenta vender filho

O homem de 41 anos suspeito de tentar vender o próprio filho, de 3 anos, por R$ 10, no centro de Belo Horizonte, teve a prisão em flagrante convertida em preventiva. A decisão foi tomada durante audiência de custódia realizada na manhã do último domingo (23).

O caso aconteceu por volta das 18h48 de sexta-feira (21), na região da Praça Sete, Centro da capital mineira. De acordo com o boletim de ocorrência, populares levaram o homem até uma base móvel da Polícia Militar e relataram que ele estaria vendendo a criança por R$ 10 para comprar drogas.


A Polícia Civil informou que o suspeito foi levado à Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente, onde foi ouvido e autuado em flagrante por prometer ou efetivar a entrega de filho ou pessoa sob sua responsabilidade a terceiros mediante pagamento ou recompensa, crime previsto no artigo 238 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Após os procedimentos, o homem foi colocado à disposição da Justiça. O Conselho Tutelar foi acionado e ficou responsável por acompanhar o caso e adotar as medidas necessárias para proteger a criança.


Bebê de cinco meses agredida

Um homem, de 21 anos, foi preso suspeito de agredir a filha, uma bebê de cinco meses, no bairro Jardim Europa, na região de Venda Nova, no último sábado (22). Foi a avó materna quem acionou a Polícia Militar depois que a filha apareceu na casa da família e mostrou as marcas que a bebê apresentava.

Os avós da criança afirmam que o suspeito já havia apresentado comportamento violento e teria ameaçado de morte a mãe da menina, a criança e outros parentes. A principal preocupação é com a possibilidade de o homem deixar a prisão.


Dias antes da denúncia envolvendo o bebê, a avó e o suspeito já haviam discutido, com ele, segundo ela, tendo feito várias ameaças. A mulher conta que após o episódio solicitou uma medida protetiva, mas que o homem continuou.

Segundo a Polícia Militar, a mãe e a bebê foram levadas ao Hospital Odilon Behrens, onde receberam atendimento médico. Ainda de acordo com o relato da avó, os médicos disseram que uma lesão na região do olho da criança poderia ser compatível com uma batida. As circunstâncias e a origem das lesões deverão ser apuradas pelas autoridades.

Traumas na infância

A psicóloga Fernanda Fusco, especialista no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, explica que quando a violência vem de dentro de casa, as chances de que isso possa gerar um trauma complexo, com repetidos episódios, é maior. Nessas situações, ele acontece dentro do vínculo que existe entre os envolvidos, e sem lugar de refúgio, já que a casa é o local do qual a criança não pode sair.

Com isso, a vítima costuma apresentar alguns sinais que podem ser observados por outras pessoas do convívio. “Quadros de estresse pós-traumático, com pesadelos, sobressalto, hipervigilância, quadros de ansiedade e depressão, dificuldade de regular emoção, que aparece como agressividade ou como explosões desproporcionais, e sintomas no corpo, dor de barriga, dor de cabeça, xixi na cama, alterações de sono e de apetite. Em crianças pequenas, o corpo costuma falar antes da boca”, explica a psicóloga.

Em casos envolvendo bebês, ou crianças muito novas, algumas pessoas costumam acreditar que episódios de violência não serão lembrados por elas. “O bebê não vai lembrar em forma de história, porque antes dos três anos o cérebro ainda não organiza memória em narrativa. Mas registra sensação, tom de voz, susto, é a memória implícita. Então o bebê não conta, mas passa a travar quando alguém levanta a voz, a se sobressaltar com movimento brusco, a não dormir, a não mamar direito”.

Com relação ao corpo, qualquer hematoma num bebê que ainda não engatinha precisa de explicação. “Marcas em orelha, pescoço, tronco e rosto em criança pequena também. E o sinal clássico é a explicação que não combina com a lesão, ou que muda de versão. A criança quase nunca conta. Ou porque não tem palavras, ou porque foi ameaçada, ou porque está protegendo quem ama. Então a gente aprende a ler outras coisas”, explica.

Além de se lembrar do ocorrido, a criança também pode acabar normalizando situações assim, como explica a psicóloga: “criança aprende o que é amor observando como é tratada. Se apanhar faz parte da rotina, ela não conclui ‘isso é errado’. Ela conclui ‘é assim que se ama’. Isso é o que sustenta a repetição da violência na geração seguinte”.

Segundo a psicóloga, os danos causados pelo trauma vivido pode aparecer em várias etapas do desenvolvimento, quando a vítima entra na escola, na adolescência e, em muitos casos, na hora de ter o próprio filho, já que ao segurar um bebê no colo o corpo pode lembrar do que a memória não guardou.

Pais com comportamentos preocupantes

De acordo com Fernanda, o comportamento dos pais é um ponto onde dá para prevenir, mas que quase ninguém observa. “Preste atenção em como o adulto fala da criança. Frases como ‘ele chora só pra me irritar’, ‘ele faz de propósito’, ‘esse aí é manipulador’, ‘já nasceu difícil’. Um bebê de três meses não tem maturidade cerebral para fazer nada de propósito. Quando um adulto atribui maldade a um bebê, ele parou de enxergar uma criança e passou a enxergar um adversário”.

Além disso, outros comportamentos preocupantes podem ser: intolerância ao choro, ciúme do bebê, ameaças ditas “de brincadeira”, humilhação em público, isolar a criança da família, impedir visitas, uso abusivo de álcool e outras drogas e violência contra a mãe.

Outro ponto importante que a especialista ressalta: o pico de agressão física a bebês coincide com o pico do choro, entre o segundo e o quarto mês. “É quando o bebê chora mais e o cuidador está mais esgotado. Saber disso permite se organizar antes: revezar, dar folga, não deixar ninguém sozinho no limite”, aconselha.

Rede de proteção

Para a psicóloga, uma rede de proteção é fundamental para observar cada passo que envolve a criança, evitando situações traumatizantes ou as identificando quando acontecem. “A escola vê o comportamento e a queda de rendimento. O posto de saúde vê o peso que não sobe, a vacina atrasada, a marca no corpo. A assistência social vê a vulnerabilidade da família. O vizinho ouve o grito de madrugada. Cada um tem um pedaço e a proteção acontece quando esses pedaços conversam”.

Ela explica, ainda, que profissionais da saúde e educação tem obrigação legal de notificar suspeita de maus-tratos. Além disso, existe a lei 13.431, que garante escuta especializada e protege a criança, garantindo que ela não precise ser interrogada repetidamente por várias pessoas, evitando que ela seja violentada de novo.

“Trauma na infância não é um destino. Ele precisa de alguém que interrompa a cena e dê cuidado especializado depois. E quanto mais cedo, melhor o prognóstico”, completa a psicóloga.

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