‘Ele me humilhou demais’, diz idosa que caiu em golpe do amor e teve prejuízo de R$ 200 mil
Especialista explica como funciona o estelionato sentimental e dá dicas para que as pessoas não sejam vítimas de golpistas
Minas Gerais|Arnon Gonçalves e Cler dos Santos, do R7
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Uma idosa, de 74 anos, teve um prejuízo de mais de R$ 200 mil após cair no chamado “golpe do amor”. O autor é um taxista que ela conheceu por acaso, e com quem desenvolveu uma relação, até perceber que estava sendo roubada. O homem foi preso suspeito do estelionato, mas a vítima relata ter ficado com vários traumas devido às agressões físicas e psicológicas que sofreu.
Especialista explica que muitos estelionatários tem um perfil já definido de como agir para atrair e enganar as vítimas. Conhecer um pouco desse comportamento pode ajudar para que as pessoas não caiam em golpes do tipo. Entre as atitutes dos autores estão a apresentação sempre muito amigável e atenciosa, que logo evolui para pedidos constantes em relação ao dinheiro.
Golpe do amor
A idosa conta que pediu um táxi para levá-la até o local onde costuma dar aulas de artesanato. O motorista, de 55 anos, se apresentou como Edmilson, dizendo ser um homem gentil, funcionário público e que estava divorciado. Segundo a idosa, a conversa evoluiu durante o trajeto e eles combinaram, ali mesmo, de manter o contato. Depois de alguns encontros, decidiram assumir uma relação, que durou cerca de um ano.
No começo, ela conta, tudo ia bem. O homem demonstrava ser carinhoso e atencioso. Apaixonada, ela comprava presentes para ele. Até o momento em que as coisas começaram a mudar. De acordo com a vítima, o companheiro começou a criar histórias sempre envolvendo a necessidade de dinheiro. “Tudo que era feito com ele, eu que pagava. Ele não comprava nem uma bala. Falava ‘eu trabalho com táxi, será que você podia fazer esse favor de me ajudar a comprar um carro?’. Aí nós fomos na agência, e ele escolheu o carro”.
A idosa conta, ainda, que precisou viajar e deixou os cartões de crédito guardados em um guarda-roupas na casa dela. Segundo ela, o suspeito teria ido até a residência, pegado os cartões e depois ido até um banco. “Através do banco foi feito um empréstimo. Só ficou para mim assinar. Na época era 45 mil. E o cartão de crédito ele usou para fazer compras. Eu falei: ‘mas eu não comprei nada’. Mas eu já estava meio desconfiada. Porque é muito dinheiro”.
E os pedidos por dinheiro não pararam por aí. Ela conta que chegou em um momento em que o homem alegava que estava com a mãe doente e precisava de ajuda nos custos do tratamento, porque o SUS não estava resolvendo. Na mesma época ele teria pedido, também, R$ 5 mil reais para ajudar o pai.
Quando questionada sobre os gastos, o homem alegava que iria dar um jeito de arrumar o dinheiro, mas continuava pedindo por mais e criando novas situações. Até que a idosa teve outra surpresa. Ela conta que um dia entrou no carro que havia comprado para ele e encontrou um documento de seguro do veículo com o nome Edson Rezende de Lima. Ela, então, ligou para terceiros e conseguiu descobrir que se tratava do homem com quem estava, que usava o nome Edmilson. “Quando eu vi a foto, eu quase tive um ataque cardíaco. Eu entrei em pânico”, relata.
Além do golpe financeiro, a vítima relata que foi ameaçada várias vezes e chegou a sofrer violência sexual do parceiro. “Foi realmente muito ruim. Eu me senti suja, porque ele queria fazer coisa e eu não aceitei e ele forçou. Estou fazendo tratamento”.
Depois de vários gastos no nome da vítima, ela conta que o suposto estelionatário desapareceu por um tempo. Depois, começou a mandar mensagens de ameaças para o celular da idosa. Foi quando ela pediu uma medida protetiva, que foi aprovada. No entanto, o homem continuou com as ameaças.
Segundo a idosa, ela acionou novamente a polícia, que foi até a casa do homem e efetuou a prisão. Edson Rezende passou por audiência de custódia e teve a prisão mantida. Durante o depoimento, ele ficou em silêncio sobre as acusações. A defesa do suspeito disse que irá se manifestar somente às autoridades. Ressaltou, ainda, que a narrativa qu está sendo divulgada sobre o suspeito não reflete, necessariamente, a integralidade dos elementos do processo.
Em nota, a Prefeitura de Belo Horizonte confirmou que Edson é, de fato, servidor público. A instituição falou que não compactua com o ocorrido e que irá colaborar com as investigações.
Para a idosa, ficou uma sensação de medo, mas também uma desilução em relação à acreditar no amor outra vez. “Ele me humilhou demais. E isso eu vou carregar até quando, meu Deus? Não tem condições”.
Perfil dos estelionatários
A advogada criminalista, Carla Silene, explica que o termo estelionato sentimental é um “apelido” para caracterizar um tipo específico de estelionato e fala qual é o perfil desse tipo de crime. “Nós vamos observar alguns comportamentos que se repetem como uma criação de intimidade muito rápido, uma pessoa atenciosa para além do que é comum, com histórias muito difíceis que nunca terminam, uma vai embolando na outra para trazer aquela sensação de compaixão da vítima”.
Além disso, ela explica que o estelionatário tem pedidos frequentes em relação a gastos e dinheiro. “Insinuação frequente de dificuldade financeira, para uma urgência médica, uma urgência familiar, necessidade de uma viagem, e sempre acompanhadas de que pode ficar tranquila, eu tenho dinheiro para receber, vou lhe repor, pode confiar, sou uma pessoa honesta”. Ela explica que, nesses casos, se a pessoa tiver alguma desconfiança é importante pedir ao companheiro provas de que ele, de fato, está passando por aquela situação.
De acordo com a especialista, é necessário uma atenção ainda maior quando se trata de idosos, mas que qualquer pessoa pode ser vítima desse tipo de golpe. “Muitos dos nossos idosos hoje encontram-se carentes de companhia, de pessoas próximas, ou às vezes estão vivenciando o luto de uma perda recente, uma solidão pelo afastamento dos filhos ou de outras pessoas queridas, elas acabam sendo mais vulneráveis. Mas lembrando que isso pode acontecer com qualquer outra pessoa”.
Como provar
Caso a pessoa seja vítima desse tipo de golpe, há algumas ações importantes para que ela consiga comprovar o ocorrido. Silene explica que é recomendado guardar mensagens, áudios, fotografias, extratos bancários, e-mails, comprovantes de transferência, faturas de cartão, contratos de empréstimos, e também depoimentos de amigos, familiares, e funcionários de instituições financeiras que tenham presenciado algo.
“A utilização de cartões, de senha, de qualquer contratação sem autorização, induzindo, ou às vezes mesmo a própria vítima assinando ali um contrato de empréstimo, mas por indução, tudo isso é violência patrimonial’, explica a advogada.
Em caso da vítima ser mulher, ela explica que a Lei Maria da Penha já reconhece a violência patrimonial como uma das formas de violência contra a mulher, e pode ser aplicada nesses casos. Uma das abordagens para defender a vítima é a medida protetiva.
Além disso, Silene explica que a vítima de um crime de estelionato tem direitos que podem ocorrer tanto na esfera criminal, que é de buscar que essa pessoa responda criminalmente pelo ato praticado, ou na esfera cível, onde ela terá direito a pedir uma reparação, uma indenização pelo dano que ela sofreu. Caso o processo avance, a advogada explica que o agressor pode ser condenado à prisão ou obrigado a reparar o dano financeiro.
Quem procurar
Muitas vezes, após constatar que está sendo vítima de um golpe do amor ou outros relacionados a perda financeira, a pessoa pode ficar confusa em relação a quem procurar primeiro. Nesses casos, Silene explica: “constatada a ocorrência de uma violência patrimonial, a primeira medida é procurar a polícia militar para registrar essa ocorrência ou a polícia civil para poder fazer o pedido de que se tenha uma investigação.
Para a criminalista, é importante também que a vítima comunique aos bancos sobre o golpe sofrido para que eles bloqueem as contas e evite outros rombos financeiros. Todo o material coletado pode contribuir para que a resposta da Justiça seja mais rápida, e eficiente.
“É sempre importante a gente lembrar, o afeto verdadeiro não exige que a pessoa compre a companhia, prove o amor por meio de empréstimos ou que permaneça em silêncio por medo. Quando o vínculo amoroso se transforma em um instrumento de manipulação, de exploração, isto é violência e a vítima precisa de acolhimento, proteção e acesso imediato à justiça. Estejamos atentos”, alerta a advogada.
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