Professor de box é atacado por pitbull em MG; adestrador explica como reagir
BH já registrou mais de 200 ataques só neste ano; lei proíbe cães da raça sem focinheira em lugares públicos
Minas Gerais|Arnon Gonçalves e Cler Santos, do R7

O professor de box, Max Alexandre Ramos, passou por um momento de pânico ao ser atacado por um pitbull, enquanto acompanhava um grupo de crianças durante uma corrida em Ribeirão das Neves, na Grande BH.
O episódio entra para uma série de ataques envolvendo cães em Belo Horizonte e região metropolitana neste ano. Até agora já foram registrados, só na capital mineira, mais de 200 casos de pessoas atacadas por cães.
Ao se deparar com um cão solto na rua, que apresenta risco, ou ao ser mordido por um, é importante algumas ações para evitar o pior, como explica um adestrador. A ação rápida do dono do animal também é fundamental, assim como a consciência da necessidade de colocar equipamentos como guia e focinheira para evitar ataques como esse.
Momento do ataque
Max conta que todas as manhãs sai para uma corrida de aquecido com um grupo de crianças que integra o projeto social de box dele. Eles já tinham o hábito de passar na Avenida Tancredo Neves, no bairro Esperança, onde costumam ficar alguns cachorros. Mas, até então, nenhum os havia atacado.
Em imagens registradas por câmeras de segurança é possível ver o grupo se aproximando, com as crianças correndo próximas ao professor. Pouco depois aparecem alguns cachorros, incluindo o pitbull, que ataca Max.
Veja o flagrante do ataque:
Max conta que, ao perceber que o cachorro iria avançar, tentou jogar o telefone contra o animal, mas não adiantou. “Ele conseguiu morder por baixo do meu peito, foi onde que eu consegui pegar na orelha dele e imobilizar, travar ele no chão e segurar ele até o rapaz vir pegar”.
Para o professor, o principal receio é que o animal avançasse nas crianças que estavam próximas. “O meu instinto, a primeira coisa foi as crianças, preservar a vida deles. Eu entrei na frente porque eu já sabia que o ataque, se não visse em mim, ia pegar um deles. E se, infelizmente, pegasse algum deles, não ia ter a mesma sorte”.
Max conta que se assustou com a força do cachorro, já que o animal conseguiu derrubá-lo e ainda ficou se debatendo para tentar fugir e continuar o ataque. Nas imagens é possível ver o momento em que um homem se aproxima e retira o cachorro de cima do professor.
Após o ataque, Max conta que foi procurar uma unidade de saúde, mas até nisso ele encontrou dificuldades. Passou por dois postos e não encontrou uma vacina contra raiva. Só mais tarde recebeu uma ligação da funcionária avisando que havia chegado e assim ele conseguiu tomar duas doses, para evitar possíveis doenças.
Em nota, a Prefeitura de Ribeirão das Neves disse que a vacina antirrábica está disponível nas Unidades Básicas de Referência (UBRs) do município, de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Aos sábados e domingos, casos de exposição ao risco de transmissão da raiva devem ser encaminhados ao Hospital São Judas Tadeu, até às 19h.
Sobre o pitbull que atacou Max, a Prefeitura disse que o cão foi capturado pelo Corpo de Bombeiros, mas antes da chegada do Canil Municipal para fazer o recolhimento, o responsável pelo animal compareceu ao local e o cão foi devolvido a ele. O professor de box disse que ficou sabendo que o animal será levado para um sítio. “Ele combinou com os policiais, assumiu a responsabilidade e levou o cachorro para um sítio com muro fechado, que é o local onde o cachorro desse deve ficar”.
Como reagir em situações assim?
Para o adestrador de cães, Augusto Lavinas, os sinais da agressão começam muitas vezes antes mesmo do ataque, quando é analisado a linguagem corporal do animal. Além disso, alguns gestos como levantar a mão para o animal ou simular que irá agredi-lo, podem atrair uma reação indesejada.
Sobre a situação com Max, ele explica que vários pontos podem ter contribuído para o ataque como, por exemplo, o fato dos cachorros soltos já estarem agitados, pouco depois aparece o grupo do professor e das crianças correndo e, quando um cachorro menor vai na direção de Max, ele ergue uma das mãos. Foi nesse momento que o pitbull se aproximou e fez o ataque.
Nesses casos, segundo o adestrador, é importante alguns cuidados. Caso a pessoa esteja andando na rua e se depare com um cão que poderá ataca-la, ele explica: “a primeira coisa que a gente deve fazer numa situação dessa, igual a essa que é especificamente que aconteceu do boxeador, é não ameaçar o cão, não bater pé, não fazer movimentos bruscos. Tudo isso pode acabar incentivando o cão a atacar a pessoa. Então, a gente deve evitar contato visual, ficar parado lateralmente, cruzar os braços”.
Agora, se o ataque já ocorreu, também é necessário uma certa atenção para que a situação não piore. “Se o cachorro morder, a gente não deve bater, puxar o braço, essas coisas. Porque isso pode acabar aguçando mais o ataque do cão e o cão acabar mordendo mais forte e até piorando ainda mais a agressividade”.
Augusto reforça ainda que, nesses casos, é necessária uma ação rápida do tutor do animal. “Quando já ocorreu o ataque, o tutor deveria ter sido mais ágil e ido mais rápido ao encontro do cachorro, puxado ele e às vezes pegar um cinto, pegar uma corda e amarrar no pescoço do cachorro para retirar o cachorro para que ele evitasse de continuar mordendo. Porque diante daquela situação, outros cães poderiam ter atacado e poderia ter virado uma agressividade generalizada de todos os cães”.
O adestrador também reforça a importância do uso da guia: “Em várias cidades e estados é obrigatório o uso da guia, mas mais do que essa obrigatoriedade pelo estado, deve ser uma responsabilidade do tutor. Ele deve andar com uma guia, um peitoral, com um material seguro para o cachorro não conseguir escapulir ou fugir”.
Em outros casos, só a guia não é suficiente. Aí entra a focinheira. Sobre isso, o adestrador explica que é preciso treinar o animal para que se acostume com o equipamento e saia sempre com ele.
Casos registrados e punição
O caso chama a atenção para os riscos de ataques de cães e para a necessidade de cumprimento das regras de circulação desses animais. Dados da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) mostram que o Hospital João 23, referência no atendimento de urgência, registrou 288 atendimentos a vítimas de ataques de cães em 2025. De janeiro a setembro deste ano, já foram 206 atendimentos.
Em janeiro de 2025, entrou em vigor uma nova regra em Minas Gerais para cães de raças como pitbull, dobermann, rottweiler e fila brasileiro, além de animais de porte físico, força e comportamento semelhantes. A Lei 25.165/2025 determina que esses cães não podem circular em espaços públicos sem focinheira e coleira contendo nome, endereço e telefone do tutor. A condução também deve ser feita por uma pessoa maior de 18 anos.
O descumprimento da legislação pode resultar em multa de R$ 553,10. Se o animal provocar ferimento em uma pessoa, a multa passa para R$ 5.531. Quando a vítima comprova a lesão por meio de laudo médico acompanhado de boletim de ocorrência ou representação, o valor pode ser cobrado em dobro. Em caso de lesão corporal grave, a multa ultrapassa R$ 16 mil.
O ataque sofrido por Max terminou sem ferimentos graves, mas deixou o alerta para o perigo de cães de grande porte circularem sem os equipamentos de segurança exigidos por lei.
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