‘Queria ser respeitado’, diz mineiro, ex-faxineiro de hospital, que se formou em medicina
Bruno Eulálio Santos, de 28 anos, teve uma trajetória marcada por dificuldades financeiras, empregos informais e muita persistência
Minas Gerais|Arnon Gonçalves, do R7 e Janaina Machado e Regiane Moreira, da Record Minas
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Bruno Eulálio Santos, de 28 anos, tem muito o que contar sobre o caminho que trilhou saindo da Favela do Ressaca, em Contagem, para se tornar médico em Santa Catarina. Agora formado, o mineiro celebra a conquista depois de uma trajetória marcada por dificuldades financeiras, empregos informais e muita persistência.
Bruno foi criado no bairro Ressaca, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele enfrentou uma rotina de trabalho pesado, estudou no ônibus, enfrentou preconceitos e, oito anos depois, conquistou o diploma de medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Mudança de planos
Na adolescência, Bruno sonhou em ser jogador de futebol, mas os planos acabaram mudando. “Minha infância toda foi pautada pelo futebol, eu era mais um menino pretinho que queria ser jogador, eu não sonhava em ser médico, não tinha essa pretensão, isso foi um recorte da minha história”, conta o médico.
Ao ver que a carreira como jogador não deslanchou, ele decidiu focar a atenção nos estudos. Nesse meio tempo, Bruno trabalhou em diferentes funções. Foi lavador de carros, na Avenida Princesa Isabel, uma das avenidas mais conhecidas de Contagem. Depois, atuou como atendente de carrinho de lanches e borracheiro.
Aos 17 anos, uma oportunidade maior surgiu quando a irmã mais velha, que já morava em Santa Catarina, o convidou para morar com ela. Na cidade, ele conseguiu um emprego de faxineiro em um hospital. E foi justamente ali que nasceu o sonho e a decisão de cursar Medicina.
Sem romantização
No entanto, Bruno não romantiza o início do sonho. A diferença na forma como os profissionais da saúde e os funcionários da limpeza eram tratados despertou uma reflexão. Ele chegou a sofrer preconceito no local.
“Hoje sou apaixonado pela profissão e me sinto completamente realizado, amo meus pacientes e atender as pessoas, mas na época meu olhar com a medicina foi porque eu queria ser respeitado. Queria que as pessoas me tratassem bem. Como faxineiro, eu via que era tratado mal pela cor da minha pele e pelo que eu fazia, enquanto os médicos tinham um tratamento diferente”.
Foi a partir dessa experiência que ele conta ter digitado “como ser médico no Brasil” em um buscador online pela primeira vez. Ali, ele viu que não só era possível se tornar médico, como também fazer o curso de forma gratuita, por meio de programas sociais como Sisu, para escolas públicas, e Prouni, para escolas particulares.
“Pagar nunca foi uma opção para a minha realidade. Foi aí que lidei com a primeira grande barreira da minha vida. O acesso existe, mas como chegar lá é uma questão, as notas naquela época eram inalcançáveis para entrar no curso. Ainda assim, acreditei, continuei trabalhando e assinei um cursinho online”.
Durante os estudos, descobriu uma estratégia que mudaria sua preparação: o uso de flashcards para memorizar o conteúdo. Os cartões com perguntas e respostas, revisados diariamente durante os deslocamentos de ônibus entre casa e trabalho foram essenciais para ele estudar e conseguir uma vaga na UFSC. “Eu era totalmente obstinado com isso, não teve no meu caso trajetória romântica, descanso, atividade física junto, não teve nada o que pregam na internet, que é o correto. Eu não tinha como fazer isso porque eu precisava trabalhar”, conta.
Conquista do diploma
Mas se engana quem pensa que mesmo depois de todo o esforço os acessos vieram com facilidade. Após duas tentativas é que veio a aprovação para medicina na universidade pública. Foram anos de estudo até a formatura. “Eu percebia no olhar das pessoas pensando que não daria certo quando eu falava que queria medicina. Então, quando fui aprovado, foi um dos grandes momentos da minha vida, foi como se eu tivesse tirado um peso das minhas costas”.
A irmã foi a grande parceira de Bruno a quem ele agradece. Recém formado, o médico atua como clínico geral em Florianópolis. Ele conta que alguns clientes ainda se surpreendem ao ver um profissional negro no consultório, mas que ele se dedica a um bom atendimento e fica feliz ao ver como elas saem felizes após a consulta.
Depois da conquista e a divulgação nas redes sociais, Bruno se surpreendeu com a repercussão que a história de vida dele ganhou. Ainda assim, ele mantém fresca na memória todo o caminho até aqui e a importância disso para sua trajetória profissional.
“As pessoas acham legal e inspirador justamente porque é incomum, uma pessoa preta como eu, de um bairro periférico, chegar a esse lugar. Quando eu era mais novo, passava um córrego na frente da minha casa, tomado pela violência, eu via amigos morrendo todos os dias e dali saiu um médico, a questão da superação vem muito disso. Vem muito das pessoas não esperarem algo assim de alguém como eu. O que é triste. É um reflexo de muitas coisas, inclusive da injustiça social que é o nosso país”, afirma o médico.
Jeito mineiro
Mesmo em Santa Catarina, o mineiro não deixa de lado o jeitinho já conhecido do estado, que costuma conquistar outros espaços e pessoas por todo o país. “O que mais sou bom em ser médico é o fato de eu ser de Minas: a cordialidade, simpatia, a receptividade, que eu vivi em toda minha vida. Que é natural dos mineiros. É o meu grande diferencial aqui”, conta Bruno.
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