Proteína da vacina causa trombose e vacinados precisam de exame?
Afirmações foram feitas pela médica Maria Emilia Gadelha Serra, que também diz ter acompanhado 'autópsias em vacinados'
MonitoR7|Do R7

Circula pelos aplicativos de mensagens um vídeo de uma médica afirmando que tem feito "autópsias em vacinados" e detectado lesões decorrentes das vacinas contra a Covid-19. Segundo a médica, a causa dessas lesões seria a "proteína spike sintética", contida em algumas vacinas e as consequências seriam "sequelas corporais, doenças autoimunes, suspeita de tumores e morte".
A médica é Maria Emilia Gadelha, que já foi alvo de checagem do MonitoR7, quando disse que a Pfizer não realizou testes de sua vacina em menores de 16 anos, durante audiência no Senado Federal — uma informação falsa.
Otorrinolaringologista, Maria Emília se apresenta como presidente da Sociedade Brasileira de Ozonioterapia Médica, uma prática que chegou a ser contestada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina). Uma resolução de 2018 chegou a defini-la como "procedimento de caráter experimental". Seu uso durante muito tempo foi destinado apenas a estudos científicos.
Em 2023, porém, uma lei aprovada em julho pelo Senado acabou sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, liberando a ozonioterapia em todo o país como um tratamento complementar.
No vídeo, ela afirma que todos os vacinados devem realizar o teste dímero-D, para "no mínimo, detectar o risco de trombose". Porém, a equipe do MonitoR7 ouviu especialistas sobre o assunto, que explicaram que o exame, de alto custo, é desnecessário para pessoas vacinadas.
O infectologista Luiz Alves, do Hospital Moriah, em São Paulo, esclarece que "questionar a eficácia e segurança das vacinas contra a Covid-19 carece de fundamento e consiste em especulações infundadas".
"Preocupações surgem em relação a eventos adversos como a trombose, mas é essencial notar que tais eventos também são complicações conhecidas da própria Covid-19. Estudos demonstram a incidência de eventos trombóticos em pacientes severamente afetados pela Covid-19 em terapia intensiva", diz.
Passados três anos desde que a primeira dose de uma vacina anti-Covid foi aplicada no Brasil, já há conhecimento suficiente em relação à raridade das reações adversas graves desses fármacos.
"Eventos tromboembólicos ocorrem aproximadamente em 3,8 casos por milhão de doses administradas, uma frequência significativamente menor do que as complicações associadas à doença", acrescenta o médico do Hospital Moriah.
A infectologista Raquel Muarrek, do Hospital São Luiz, recorda que houve casos muito raros associados às vacinas da AstraZeneca e da Janssen.
Mesmo se houvesse algum estudo científico que relacionasse a vacina à trombose — o que não há, de acordo com Raquel — a proteína spike não estaria associada. Os casos raros que aconteceram com as vacinas AstraZeneca e da Janssen "foram respostas do sistema imune. Isso se chama imunotrombose, e não tem nada a ver com a proteína spike", segundo a infectologista.
Sobre o dímero-D, mencionado por Maria Emília, Luiz Alves explica que este é um "um fragmento resultante da degradação da fibrina" e que "sinaliza o aumento da atividade trombina e a subsequente dissolução da fibrina pela plasmina"
"No entanto, é comum observar níveis elevados de dímero-D em pacientes com condições graves associadas a doenças infecciosas e inflamatórias diversas. Portanto, o aumento desses níveis não implica diretamente na formação de trombos e não se recomenda a medição sequencial do dímero-D sem indicações clínicas específicas."
Alexandre Schwarzbold, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, também concorda que as afirmações de Maria Emília Gadelha não fazem sentido. Ele também questiona: "imagine se a trombose fosse ligada à spike, proteína usada em milhões de doses de vacina, a incidência seria muito mais alta. Então, não fecha". Inclusive, o risco de desenvolver trombose em decorrência da Covid é muito maior, lembra o infectologista.
Os médicos ouvidos sobre as declarações da Maria Emília lembram ainda que mesmo se existisse esse risco citado pela profissional, ele não ocorreria em crianças, já que AstraZeneca e Janssen não haviam sido liberadas para uso em pessoas nessa faixa etária até a data em que as declarações foram dadas (em 2022).
Maria Emilia Gadelha também está acompanhada, no vídeo, de outros profissionais que já fizeram declarações contestadas pelo MonitoR7 e por outras agências de checagem. José Augusto Nasser, por exemplo, que disse que "crianças não precisam de vacina contra Covid".
Os outros participantes são menos conhecidos, mas uma rápida pesquisa mostra diversos posts e vídeos, com seus nomes, apagados por infringirem regras das plataformas.
A reportagem procurou Maria Emília para falar sobre as contestações às suas afirmações no vídeo. Em resposta, ela não deu detalhes sobre as autópsias e necropsias que menciona no vídeo.
A médica, apesar de no vídeo dizer ter presenciado autópsias e necropsias de corpos de pessoas vacinadas, em vez de nos descrever o que teria visto, apenas enviou links sobre um estudo internacional.
O estudo é um manuscrito científico, baseado em 15 casos, que não foi publicado em revista científica com revisão por pares. O estudo citado já foi contestado por outros cientistas. Três especialistas disseram à Reuters que o artigo "tem sérias limitações".
Não é a primeira vez que Maria Emilia Gadelha Serra cita estudos erroneamente. No final do ano passado, a médica apresentou um estudo intitulado "First case of postmortem study in a patient vaccinated against SARS-CoV-2" ou "Primeiro estudo de caso post mortem em um paciente vacinado contra SARS-CoV-2", junto com figuras que apontam lesões no nariz, língua, pulmão, cérebro, traqueia, miocárdio e rins.
O estudo, no entanto, não fala de danos provocados pela vacina. Trata-se, na verdade, da análise do que ocorreu com um homem de 86 anos, anteriormente sem sintomas, que recebeu a primeira dose da vacina e que morreu quatro semanas depois, de insuficiência renal e respiratória aguda.
Segundo os autores, os resultados podem sugerir que a primeira vacinação induz imunogenicidade, mas não imunidade estéril, que é uma proteção mais ampla. Um dos autores do estudo afirma que não houve nenhum sinal de efeito colateral da vacinação no cadáver autopsiado — diferentemente do alegado por Maria Emília.
Em seguida, ela cita um pesquisador da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, que fez uma suposição de que boa parte das mortes ocorridas duas semanas após a vacinação poderia ter relação com reações ao imunizante. Ela esconde, entretanto, que o cientista é a favor das vacinas e que ele mesmo foi vacinado, de acordo com relatos da imprensa alemã.
Outro ponto "esquecido" pela médica é que a opinião dele foi refutada por outros cientistas, pela Comissão Permanente de Vacinação (Stiko) e pelo Instituto Paul Ehrlich, autoridade responsável na Alemanha pelo monitoramento da segurança de vacinas e biomedicamentos.
Aqui no Brasil, a SBR (Sociedade Brasileira de Reumatologia) analisou as afirmações de Maria Emília Gadelha Serra e assegurou que não existe nenhuma causalidade confirmada entre as vacinas contra a Covid-19 e a ocorrência de vasculite, doença caracterizada pela inflamação dos vasos sanguíneos e citada no vídeo.
Em nota, a entidade ressaltou que todas as vacinas aprovadas no Brasil cumpriram todas as etapas de pesquisa clínica necessárias e foram aprovadas pela Anvisa: "A imunização contra a COVID-19 é, indiscutivelmente, a medida mais eficaz no combate contra a pandemia", completou a SBR.
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Portanto, são falsas todas as afirmações sobre possíveis efeitos da vacinação, que a médica faz em vídeo viralizado. Médicos, pesquisas e entidades demonstraram isso.
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