Estresse, ansiedade e solidão: veja quando o sofrimento emocional pode afetar a saúde do coração
A atenção médica é necessária quando sentimentos negativos se tornam persistentes, intensos ou começam a interferir na qualidade...
Portal EdiCase|Do R7

Pressão alta, colesterol elevado e tabagismo costumam ocupar o centro das conversas sobre prevenção cardiovascular. Mas estudos recentes redirecionaram o olhar da cardiologia com mais atenção para outro componente do risco: a saúde emocional. Em agosto de 2025, a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) publicou seu primeiro consenso clínico dedicado à relação entre saúde mental e doenças cardiovasculares, destacando que essa conexão é multidirecional.
“Condições psicológicas podem influenciar o risco e o prognóstico cardiovascular, enquanto uma doença cardíaca também pode desencadear sofrimento emocional”, afirma Veruska Vasconcelos, psicóloga do Hospital Alvorada Moema, em São Paulo.
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) estima cerca de 400 mil mortes por ano no país decorrentes de doenças cardiovasculares. Nesse cenário, reconhecer o impacto do estresse, da ansiedade, da depressão e da solidão não significa substituir os fatores de risco externos, mas ampliar a forma de avaliar e cuidar da saúde.
1. Por que um susto faz o coração disparar?
Quando o cérebro identifica uma situação de ameaça, o organismo ativa o sistema de luta ou fuga. A adrenalina aumenta a frequência dos batimentos, contrai os vasos sanguíneos e eleva temporariamente a pressão arterial, uma resposta normal e importante para lidar com situações de perigo. O problema aparece quando essa reação é muito intensa ou se repete constantemente.
Em pessoas que já apresentam quadros cardiovasculares ou fatores de risco, como hipertensão e diabetes, alterações provocadas pelo estresse podem contribuir para a piora da pressão arterial, alterações do ritmo cardíaco e redução temporária do fluxo de sangue para o coração. A American Heart Association (AHA) destaca que o estresse psicológico agudo pode provocar vasoconstrição coronariana, isquemia e arritmias, inclusive em pessoas sem doença cardíaca previamente conhecida.
“É importante diferenciar o gatilho emocional da causa da doença. Uma discussão, um susto ou uma perda não criam, sozinhos, uma obstrução nas artérias. Porém, em uma pessoa que já apresenta alterações cardiovasculares, uma descarga intensa de hormônios do estresse pode funcionar como um gatilho para um evento que já encontrava condições para acontecer. Por isso, episódios de dor no peito, falta de ar, suor frio, náusea ou mal-estar intenso depois de uma situação emocional forte não devem ser automaticamente atribuídos à ansiedade”, explica Eduardo Lima, líder de cardiologia do Hospital Nove de Julho (SP), da Rede Américas.
2. Um coração pode sofrer depois de uma forte emoção
A relação entre emoções intensas e coração tem uma manifestação conhecida como cardiomiopatia de Takotsubo, ou síndrome do coração partido. A condição pode surgir depois de uma situação de forte estresse emocional, como a perda de uma pessoa próxima, uma separação conjugal ou uma notícia inesperada. Acontecimentos positivos muito intensos também podem funcionar como gatilho.
O excesso de adrenalina pode provocar alterações temporárias na contração do músculo cardíaco, e os sintomas podem se parecer com os de um infarto, incluindo dor no peito e falta de ar. Por isso, a avaliação médica imediata é necessária.
“A emoção intensa não deve ser encarada como algo capaz de simplesmente ‘parar’ um coração saudável. O que pode acontecer é uma resposta exagerada do organismo ao estresse, com aumento importante de hormônios como a adrenalina, capaz de alterar temporariamente o funcionamento do coração. Na maioria dos casos, a função cardíaca se recupera em semanas, mas a fase aguda pode apresentar complicações e precisa de acompanhamento hospitalar”, explica Fernando Costa, cardiologista do Hospital Santa Paula, em São Paulo.

3. Quando o estresse deixa de ser pontual e vira parte da rotina
Sentir estresse diante de uma situação difícil faz parte da vida, mas, quando o organismo permanece repetidamente em estado de alerta, por semanas ou meses, deve haver atenção a possíveis sinais físicos. A relação não é simples nem linear, mas a exposição prolongada a situações estressantes pode se somar a outros fatores de risco e dificultar o controle de condições que já ameaçam o coração, como a hipertensão.
No Brasil, a hipertensão permanece um importante problema de saúde pública. Segundo o Ministério da Saúde, a doença está entre as principais causas de morte no país, e estima-se que 46% dos adultos com hipertensão não tenham conhecimento da própria condição.
“Quando o estresse se torna permanente, muitas vezes o primeiro impacto não aparece diretamente em um exame do coração. Ele pode surgir na qualidade do sono, na alimentação, na falta de atividade física, no aumento do consumo de bebidas alcoólicas ou na dificuldade de seguir corretamente um tratamento. Ao longo do tempo, esse conjunto pode aumentar a carga de risco cardiovascular”, explica Eduardo Lima.
4. Solidão também merece atenção quando se fala em saúde do coração
Ter poucos contatos sociais e sentir-se sozinho são experiências diferentes, mas ambas passaram a receber mais atenção na pesquisa cardiovascular. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o primeiro relatório da Comissão sobre Conexão Social e apontou que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo vivencia solidão. Além disso, o documento associa a desconexão social a maior risco de doenças cardiovasculares, depressão e morte prematura.
O estudo “Association of loneliness with incident cardiovascular diseases in middle-aged and older Chinese adults“, publicado na revista PLOS One em fevereiro de 2026, com dados de uma coorte nacional chinesa, encontrou maior risco de eventos cardiovasculares entre pessoas que relatavam solidão, mesmo após ajustes para diferentes fatores de saúde.
A meta-análise “Association of social isolation, loneliness and risk of cardiovascular diseases: Meta-analysis of cohort studies”, publicada na revista BMC Public Health em 2025, que reuniu mais de 5,2 milhões de participantes, também encontrou associação entre solidão ou isolamento social e maior risco cardiovascular, embora os próprios autores ressaltem diferenças importantes entre os estudos analisados.
“A solidão não deve ser entendida apenas como estar fisicamente sozinho. Quando a pessoa vivencia de forma persistente a sensação de desconexão, isso pode manter o organismo em um estado de estresse, afetando sua saúde para além do mental. Por isso, cuidar dos vínculos sociais e dar a devida atenção aos sentimentos faz parte de uma abordagem integral da saúde”, explica Veruska Vasconcelos.
Cuidar das emoções também faz parte da prevenção cardiovascular
A nova abordagem não significa transformar qualquer momento de tristeza, preocupação ou irritação em doença: sentir emoções negativas é parte da experiência humana. A atenção médica é necessária quando esses sentimentos se tornam persistentes, intensos ou começam a interferir no sono, na alimentação, na atividade física, no trabalho, nos relacionamentos ou no tratamento de uma doença já existente.
A prevenção cardiovascular continua baseada no controle dos fatores de risco conhecidos, como não fumar, praticar atividade física, manter alimentação equilibrada, controlar pressão arterial, colesterol e glicemia, dormir adequadamente e realizar acompanhamento médico. Exames de rotina, como aferição da pressão arterial, exames de colesterol e glicemia, que também podem ser realizados em hospitais, também devem manter sinal de alerta.
“Entender também que saúde emocional e saúde física não devem ser avaliadas em compartimentos separados. Não se trata de dizer que precisamos estar felizes o tempo inteiro para proteger o coração. O objetivo é reconhecer quando o sofrimento emocional deixa de ser passageiro e começa a afetar a saúde, os hábitos e o tratamento. Nesse momento, procurar ajuda é uma forma de cuidado, assim como medir a pressão, controlar o colesterol ou acompanhar a glicemia”, conclui Fernando Costa.
Por Bárbara Penha
















