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Augusto Nunes
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A era Evo Morales conseguiu piorar um país inviável

A história da Bolívia é uma dilacerante sequência de golpes de Estado e guerras perdidas

Augusto Nunes|Do R7

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Evo Morales está exilado no México
Evo Morales está exilado no México

"A Bolívia não é um país; a Bolívia é um problema", resumiu há muito tempo um jornalista norte-americano. Não há como discordar, informa a história política marcada por tragédias que se repetem não como farsa, mas como uma reedição mais dramática da tragédia anterior — e sempre recente. Em 1825, quando se tornou independente da Espanha, a Bolívia anunciou o nascimento de um regime democrático que, quase 200 anos depois, continua na primeira infância. E muito longe da adolescência, confirma a queda de Evo Morales.

Entre a Independência e o fim da última ditadura militar ortodoxa em 1988, jamais ocorreu uma eleição de verdade. De 1850 a 1950, registraram-se 100 golpes de Estado. Um por ano. Em 1939, o presidente German Busch matou-se com um tiro na cabeça. Em 1944, uma multidão incitada por militares rebeldes linchou o presidente Gualberto Villarroel no interior do Palácio Quemado e atirou pela janela o cadáver que permaneceu, horas a fio, pendurado numa forca improvisada na praça defronte à sede do governo.

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Entre um golpe e outro, a Bolívia se meteu em aventuras militares desastrosas. Na Guerra do Pacífico, perdeu para o Chile uma vastidão territorial que incluiu a saída para o mar. Disputas fronteiriças com o Brasil amputaram o Acre e parte de Mato Grosso. Os estragos geopolíticos se ampliaram com a derrota para o Paraguai na Guerra do Chaco. Os três retumbantes fiascos reduziram à metade o tamanho que tinha a Bolívia no dia da independência.

As turbulências não cessaram com a chegada ao Palácio Quemado, em 2004, do primeiro presidente indígena. O populista bolivariano não demorou a transformar-se em mais um caudilho disposto a tudo para eternizar-se no poder. Com a cumplicidade do então presidente Lula, confiscou bens da Petrobras para consolidar a imagem de nacionalista sem medos. O apoio incondicional à Venezuela chavista foi retribuído com petróleo barato e o financiamento de programas sociais que oficializam a compra de votos. O aparelhamento dos três Poderes fechou o cerco aos oposicionistas. E Evo se convenceu de que só a morte o afastaria do Palácio Quemado.

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Agora exilado no México, terá tempo de sobra para circular pelo mundo fantasiado de vítima de um golpe. Ele foi despejado em consequência da fraude eleitoral que promoveu e fez transbordar o descontentamento do povo. Como os esquerdistas sul-americanos enxergam tramas sórdidas por trás de todo naufrágio pilotado por parceiros de equívocos ideológicos, Lula repete que um golpe derrubou Dilma Rousseff — e ambos atribuem a um golpe a renúncia de Evo. Se o mesmo drama fosse encenado no Chile, o corrupto condenado e sua sucessora veriam na aposentadoria de Sebastian Piñera uma vitória do povo.

Os militantes do PT e seus congêneres cucarachas não têm compromisso com a verdade e a coerência. Ao sair da cadeia, aliás, Lula recomendou a seus devotos que seguissem o exemplo dos manifestantes chilenos que exigem nas ruas a mudança de governo. Deu azar: o conselho endereçado aos brasileiros foi ouvido pelos bolivianos. E acabou sobrando para o amigo alojado há 15 anos no Palácio Quemado.

A Bolívia segue muito distante do mundo civilizado. Mas a ausência física de Evo Morales já tornou o ar mais respirável.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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