A tempestade em Macondo e a quarentena no Brasil
O Brasil do coronavírus pode reduzir a uma garoa o aguaceiro imaginado por Garcia Márquez
Augusto Nunes|Do R7

Fruto da imaginação fantástica do escritor Gabriel Garcia Márquez, a chuva que começou a cair sobre Macondo na página 349 de Cem Anos de Solidão durou quatro anos, 11 meses e 2 dias. Enquanto raios e trovões ecoaram incessantemente o som da fúria, os habitantes não deram as caras nas ruas inundadas. Não houve casamentos nem separações. Todos os compromissos, planos e sonhos foram adiados para depois do aguaceiro. Quando a estiagem chegou, e a vida retomou o seu curso, Macondo era uma cidade em ruínas.
Se os profetas do apocalipse estiverem certos, a tempestade bíblica que destruiu Macondo vai parecer tão inofensiva quanto a velha garoa paulistana se confrontada com a extensão quarentena imposta pelo combate ao coronavírus. Apoiados em estudos produzidos por sumidades científicas que ninguém conhece, eles pregam a imediata suspensão por tempo indeterminado dos campeonatos brasileiros de todas as modalidades esportivas, das festas juninas, das cerimônias religiosas ou civis, das eleições municipais, do desfile de 7 de setembro, dos jantares de Natal e da festa do Réveillon.
Os pessimistas vocacionais tentariam prolongar o soturno feriadão de 2020 pelo restante da década se não houvesse uma pedra intransponível no caminho: o Carnaval chegará em 12 de fevereiro de 2021. Nenhuma pandemia impedirá que o Brasil volte a reunir, ao som de marchinhas e sambas, o maior arquipélago de multidões do planeta. É pouco vírus para tanta gente.
