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Augusto Nunes

Manifestações na Paulista

Nas manchetes, até uma Belo Horizonte já coube na avenida

Augusto Nunes|Do R7

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Manifestantes em ato do MBL no último domingo (12)
Manifestantes em ato do MBL no último domingo (12)

Com 2.800 metros de extensão e duas pistas com 12,60 metros cada uma, separadas por um canteiro central com 2,40 metros de largura, a Avenida Paulista não comporta mais de 700.000 pessoas aglomeradas ao mesmo tempo em seus 130.000 metros quadrados. Esse limite é respeitado até demais pelos cálculos da Policia Militar, que sempre vê menos gente do que há, e despudoradamente ignorado por organizadores de eventos, para os quais qualquer número abaixo de 1 milhão é coisa de comício de lugarejo. A virada do ano, por exemplo, sempre superou essa marca. E a parada gay já juntou 2,5 milhões de participantes. Como é essa a população de Belo Horizonte, ao menos na primeira página da Folha a Avenida Paulista é capaz de abrigar todos os moradores da capital mineira.

Ou era. As cifras anabolizadas pela imaginação vigarista foram encampadas pelos jornais até 7 de setembro, quando as impressionantes manifestações a favor do governo induziram a imprensa convencional a redescobrir as estimativas da Polícia Militar. Como atestam vídeos honestos e fotos sinceras, havia na Paulista pelo menos 300.000 pessoas. Os redatores das primeiras páginas decidiram que não passavam de 130.000. E acrescentaram que se tratava de um número decepcionante para os organizadores da manifestação, que esperavam — segundo os jornalistas — impossíveis 2 milhões de viventes.


A situação tornou-se mais esquisita com a realização do ato oposicionista, convocado pelo PT e pelo Psol, que juntou no Vale do Anhangabaú 15.000 pessoas — segundo a Polícia Militar. A Folha ressalvou que — segundo os organizadores — havia ali 50.000 militantes atraídos pela oratória de Fernando Haddad e Guilherme Boulos. Quase metade da portentosa manifestação governista — de “raiz golpista”, segundo a Folha.

Em 12 de setembro, um ato público liderado pelo MBL, concebido para exigir o impeachment de Bolsonaro, naufragou em meras — segundo a Policia Militar — 6000 cabeças. Passaram pelo palanque na Paulista cinco presidenciáveis: Ciro Gomes, João Dória, Alessandro Vieira, Simone Tebet e Henrique Mandetta. Muito cacique e pouco índio. Nos anos 50, para zombar das raquíticas plateias atraídas pelos adversários, Jânio Quadros jurava que juntaria 5000 pessoas no Viaduto do Chá caso sentasse no meio-fio e ficasse batendo numa lata por três minutos.

Segundo o Datafolha e outros institutos, Lula tem 60% dos votos nas pesquisas eleitorais. Em homenagem à imprensa engajada, por que seus devotos não descem das porcentagens, dão as caras nas ruas e garantem números que os jornais por enquanto têm de inventar? Só assim será afastada a suspeita de que seu amplo favoritismo é tão real quanto a manchete que celebrou aquela parada gay em que cabia uma Belo Horizonte.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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