O vírus ignorou a quarentena

Crescimento do número de infectados e mortos informa que o isolamento não controla epidemias

Tingshu Wang / Reuters - 6.4.2020

Em 24 de março, quando o governador João Doria decretou o isolamento social em todo o Estado, o balanço da epidemia registrava em São Paulo 810 casos confirmados e 40 mortes. Nesta segunda-feira, no momento em que Doria anunciou a prorrogação por mais 15 dias do isolamento nos mais de 600 municipios paulistas, os casos confirmados eram 4.620 e as mortes por coronavírus haviam chegado a 275.

Duas perguntas:

1) A quarentena para todos não foi feita para desacelerar a expansão da pandemia?

2) Se não impediu a multiplicações dos números, por que manter todo mundo em casa?

Resposta do governo estadual: porque sem o isolamento as coisas teriam sido muito piores. Segundo o governo paulista, até o dia 13 haverá mais 1.300 mortos. Sem a quarentena, seriam 5.000 mortes, garantiu Dimas Covas, baseado no mesmo estudo do Imperial College que previu 2 milhões de óbitos só nos Estados Unidos.

Ainda bem que vozes sensatas continuam a combater também o vírus do medo. Uma delas é a do médico e ex-ministro da Cidadania Osmar Terra. Ele segue repetindo que, como todas as anteriores, a epidemia de coronavírus avança com ou sem quarentena — até que mais da metade da população seja infectada. A partir daí, a curva desenhada pelo coronavírus se torna descendente. É o que começou a acontecer neste fim de semana na Itália e na Espanha, dois países fortemente afetados pela pandemia. É o que acontecerá no Brasil.

Em vez de espalhar previsões que só alimentam o pânico, nossos governantes deveriam concentrar-se na proteção dos integrantes do grupo de risco e na multiplicação de testes e leitos de UTIs. O povo brasileiro quer mais ação e menos profecias imbecis. Não é pedir muito.