Logo R7.com
RecordPlus
‌

Receita de hoje: pudim de cachorro

Aos protetores e cuidadores de animais, nenhum pet foi maltratado ou ofendido durante a produção deste texto

Bloco de Notas com Gabriel Graciano|Gabriel GracianoOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Por que cargas d’água o pudim é de cachorro? É um filme macabro? Inteligência artificial/ChatGPT

A vida de um repórter iniciante é repleta de pautas leves. Assuntos mais tranquilos para que o profissional, que está no começo da carreira, possa criar intimidade com a câmera, com a rotina e encontre a própria maneira de trabalhar.

Eu tinha poucos meses de reportagem e vivenciava o meu primeiro verão no litoral paulista. Sempre morei acima do nível do mar, com ar fresco e ventos mais frios que a temperatura geral. Pela primeira vez eu vivenciava um ar denso e úmido, mais quente que a temperatura do meu corpo e quase insalubre. Havia me mudado para Santos.

‌
(...) diante da entrevistada, não poderia transparecer meu sofrimento. Então, sorri o tempo todo e perguntei a ela sobre a história do pudim.

A missão era uma: sobreviver a um dia de gravação externa no calor e voltar com uma reportagem que ensinava uma receita para o fim de ano. Era o tal verão natalino, todo mundo já se organizava para as festas que estavam, pela primeira vez após a pandemia, liberadas pelo governo.

Na pauta impressa, estava escrito que eu visitaria uma mulher que vendia um pudim de capuccino. Era uma receita ideal para que o telespectador pudesse fazer em casa.

‌
Fui guerreiro! Meti o colherão no pudim e mandei um pedação para dentro! Inteligência artificial/ChatGPT

A ideia era boa mesmo! E na teoria, o sabor era delicioso também. Chegamos por volta das 15h30, o prédio era branco e simples em uma rua que não vou saber explicar qual é.

Nesta época, recente na cidade, tudo parecia igual. A mulher vivia em um prédio idêntico ao meu, em uma rua idêntica à minha e se eu fosse esquecido, é bem capaz que ainda estivesse perambulando por lá, tamanha dificuldade geográfica que este humilde repórter possui. Assim que desci do carro, um homem saía com dois cachorros de médio porte.

‌

Ele me abordou e disse:

— Opa! Tudo bem? É na minha casa a gravação! Eu vou sair com os cachorros para vocês ficarem mais tranquilos. Minha esposa já está descendo.

‌
Por que cargas d’água o pudim é de cachorro? É um filme macabro? Um crime investigado pela Luisa Mell? Derrubaram o cachorro na panela? Acalme-se!

Agradeci e aguardei. O calor estava por volta de uns 42 graus. Eu já beirava a desidratação e o suor escorria pelos meus olhos. Ali aprendi que não poderia usar camisas claras, elas grudariam no corpo e que o protetor solar era um item obrigatório.

A mulher desceu, era muito simpática. Nos levou até o apartamento dela que ficava uns andares acima. Dentro do prédio era mais quente ainda. O dia estava parado, não havia vento. Apenas aquela fatídica sensação de estar cozinhando, mas diante da entrevistada, não poderia transparecer meu sofrimento.

Então, sorri o tempo todo e perguntei a ela sobre a história do pudim. Vou ter que buscar nos arquivos da minha cabeça, faz um certo tempo. Ela era aposentada e para complementar a renda, começou a produzir a sobremesa.

O pudim, com um degradê de cores que ia do caramelo vira-lata ao cor amêndoa do lulu da pomerânia

A pandemia incentivou o comércio nos prédios, tanto que ela vendia na porta de casa. E na época, muita gente comprou para levar nos jantares e ceias de Natal. Ela estava contente com a chance de mostrar o trabalho na televisão e com medo de chover muitos pedidos, um medo positivo.

A partir de agora, caro leitor, tenho que avisá-lo que a história fica mais densa. Segure firme!

No meio da sensação de frigideira havia mais um problema: a mulher vivia em um apartamento pequeno com 3 cachorros médios. Com a alta temperatura, todos suando para equilibrar o calor do corpo, a falta de um ventilador ou um ar-condicionado e uma cadela que ficou no corredor, já que o marido só conseguia levar dois para a rua, deixou tudo com um cheiro muito específico, um aroma canino, vamos dizer assim. Um cheiro quente e forte de cachorro que não dava para ignorar.

Como diz o ditado? “Camarão que dorme a onda leva” e o tempo passava depressa. Era preciso começar a gravar. Separamos os ingredientes e começamos:

— A receita de hoje é deliciosa e fácil de fazer! Você vai precisar de...

É uma sensação gostosa de brincar de Ana Maria Braga, Palmirinha, Rita Lobo, essas mulheres fantásticas que a gente admira. O pudim levava café, achocolatado, canela. Ele tinha uma cor marrom, de capuccino mesmo.

Chegou a hora do plot twist! Essa que você esperou tanto para saber. Por que cargas d’água o pudim é de cachorro? É um filme macabro? Um crime investigado pela Luisa Mell? Derrubaram o cachorro na panela?

Acalme-se! A receita foi ao forno, mas a mulher que era telespectadora já deixou um pronto na geladeira para fazermos a mágica da televisão. O pudim, com um degradê de cores que ia do caramelo vira-lata ao cor amêndoa do lulu da pomerânia, virou o protagonista e o humilde repórter que vos escreve, o degustador.

Acontece que eu olhei para o corredor porque um cheiro forte saltou no ar. É isso que você talvez tenha pensado. O cachorro defecou. A cadela, no caso. O mais emblemático dessa história é que a cor do dejeto da cadela era exatamente igual à do pudim de pomerânia, brincadeira!

Pudim de capuccino. Somado o aroma da casa, mais o calor, mais o dejeto, mais a expectativa da mulher em me ver provando, mais o cinegrafista que ria por dentro sabendo que o momento chegara, fiquei encurralado e sorridente (tinha que segurar as pontas).

Fui guerreiro! Meti o colherão no pudim e mandei um pedação para dentro! O cocô olhava para mim sorrindo, eu fingia que não via e aquela fração de segundos que passava em câmera lenta foi voltando ao normal.

Eu preciso confessar! O pudim era delicioso, tanto que o dejeto da cadela até desapareceu. No fim, comi dois pedaços do pudim de cachorro e o cinegrafista Doca, meu irmão dos perrengues, também.

Façam em casa, leitores, e adotem um cachorro!

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas

‌

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.