O vovô parou de ver televisão e endoidou: o efeito das redes na forma de se informar
A crise da desinformação e a esperança dos telejornais em desmentir o irreal

Sentado em uma praça esperando um entrevistado chegar, ouço um barulho vindo de um celular. Era um vídeo, desses rápidos que se assiste no automático. Nele, estava uma mulher falando sobre a esquerda brasileira e o aborto no plenário e, além disso, mostrando uma boneca.
Quem segura o celular é um idoso com um par de lentes de aumento na base inferior do óculos, esses bifocais. O homem ouve e vê atentamente. Em seguida, com o deslizar do dedo indicador, um vídeo gerado por inteligência artificial (IA) que mostrava uma briga entre o presidente do Brasil e o Donald Trump, dos Estados Unidos.
Os assuntos têm uma ligação, a política, mas em cenários duvidosos. O vídeo da mulher no plenário, que me chamou a atenção, não era aquele cenário azul royal do Congresso. Foquei bem e vi que era uma vereadora.
Com meu senso crítico, no auge do meu privilégio, fiz esse questionamento: impossível um município ter 0 problemas para que uma vereadora suba no plenário da câmara e fale de aborto segurando uma boneca. Tenho certeza de que existem milhares de pautas mais urgentes.
O outro vídeo também me provocou um incômodo: ele, maldosamente, planta uma narrativa de bipolaridade política, um sempre totalmente contra o outro.
Os dois vídeos também têm uma outra semelhança: são ativadores de dopamina, um neurotransmissor responsável por sentimentos de euforia e prazer nas pessoas.
A teia está formada! O idoso já está preso nela. Mesmo estando em uma praça verdejante, com o mar ao fundo e um quiosque de água de coco geladinha, o vovô perde o tempo que não lhe volta, sentindo o prazer da tela, ao invés de aproveitar a vida, que lhe parece ser, pelo andar do que observei, bem menos interessante.
Eu sei que ela é chata muitas vezes: a vida. Nem sempre há algo estimulante para observar, e aí está o perigo.
Com um aparelho celular nas mãos e redes sociais repletas de vídeos satisfatórios à disposição e sem nenhum custo, o cidadão deixa de se interessar pelo monótono que cerca a existência.
O planeta tem mais de 5 bilhões de anos, nossa espécie, 250 mil; uma árvore demora um século para ficar enorme. Nada que exista nessa bola gigante e azul tem a duração de 90 segundos.
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Há cerca de 70 anos, aqui no Brasil, nasceu uma peça quadrada com um vidro frontal que exibia imagens e som. Ela mostrava o que queria, e o telespectador precisava se conformar. Foi assim por muito tempo.
Anos mais tarde, quem assistia ganhou o pequeno poder de mudar de estação, o famoso canal. Nasceram outros, com conteúdos diversos. E essa era a única manifestação popular. Quem quisesse se entreter tinha que sentar e esperar o programa favorito.
A TV virou uma potência e se estabeleceu tecnologicamente, oferecendo conteúdo de qualidade e reforçando, eticamente, também. A televisão virou um sistema sólido de educação, principalmente com noticiários.
Eles moldaram um modelo brasileiro de imprensa televisiva que informa entretendo, de maneira dinâmica e responsável. Nela, existe um ranqueamento de temas: os assuntos são organizados de acordo com a gravidade deles, para que o espectador consiga criar um parâmetro.
Os jornais começam com os temas mais urgentes e terminam com os mais leves. Foi a maneira que o jornalismo descobriu de explicar, mesmo sem dizer.
Com a internet, pessoas deixaram de se informar pela televisão e usam apenas o celular. Os danos são grandes.
O primeiro deles é a fonte. Na televisão, ela é declarada, tem estrutura e história. A notícia que sai da tela é regulamentada, tem origem e crivo, passou por um mesão de jornalistas com formação e diplomação na área.
A internet é um oceano de dados: nem sempre o perfil mais visto é reconhecido e tampouco te dá garantias de que o que é exibido nele é real.
E a notícia chega na rede social de maneira aleatória e sem a tal escala de urgência, diferente da TV, que organiza os assuntos por prioridade. Sem essa classificação, o risco de confundir o que é grave do que é menos grave aumenta.
A televisão assumiu há décadas essa tarefa de nortear o brasileiro. São 70 anos de prática, muitas fases e muitos esforços. E, com a população priorizando lugares sem regulamentação, os cenários são visíveis: gente bebendo água com sal para hidratar, grupos que invadiram os Três Poderes e depredaram o patrimônio público, pessoas que desacreditaram da vacina e confiaram a vida a um medicamento de combate a vermes para a cura da Covid-19.
A televisão é missionária e tem um papel importantíssimo na sociedade: libertar a população das amarras da ignorância. E o jornalismo é esse canal.
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