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Ciência para o Dia a Dia

Glúten: vilão para todos ou só para quem realmente precisa evitar?

Antes de cortar o pão, separe o que é ciência do que é tendência e entenda para quem a dieta sem glúten é realmente essencial.

Ciência para o Dia a Dia|Natália Valente

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Está na moda retirar da alimentação o glúten, os carboidratos e a lactose (que é o carboidrato do leite). Mas será que isso realmente faz efeito? Será que é uma conduta válida para todos? É o que vamos discutir a seguir.

É divulgado, principalmente nas redes sociais, o incentivo à alimentação mais saudável e natural. Embora seja um bom comportamento, muitas pessoas estão confundindo o que é saudável com o que é exagero. De fato, retirar certos componentes da rotina alimentar pode ser essencial, mas apenas para alguns indivíduos


Natália Valente é nutricionista e doutoranda em Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Integra o Laboratório de Tecnologia de Alimentos e Nutrição, no Departamento de Biociências da UNIFESP, campus Santos. Com bolsa da Fapesp, desenvolve pesquisa voltada ao desenvolvimento de estratégias dietéticas para o cuidado de pessoas com doença celíaca.

Usando o glúten como exemplo, escolho falar da doença celíaca. Ela está crescendo no mundo todo, e há quem não pode consumir o glúten, nem mesmo uma micro fração. Em casos mais severos, mesmo traços mínimos de glúten são suficientes para causar reações. Por isso, alguns celíacos precisam de cuidados extremos. Não podem utilizar fornos, panelas, colheres ou qualquer utensílio que tenha entrado em contato com alimentos contendo glúten. Até superfícies compartilhadas e farelos invisíveis podem representar risco. A contaminação cruzada, mesmo que imperceptível, pode causar danos importantes à saúde dessas pessoas. Além disso, a dieta é restritiva para o resto da vida.

Nos celíacos, o glúten, que é um tipo de proteína, desencadeia um processo inflamatório bastante exacerbado no organismo, com diversas consequências, alterações imunológicas e metabólicas. Esse processo pode, inclusive, aumentar o risco de desenvolver câncer, caso a pessoa tenha predisposição genética.


A doença celíaca é uma condição autoimune. O próprio sistema imunológico ataca tecidos saudáveis ao detectar o glúten no organismo. Esse ataque compromete as vilosidades do intestino delgado, estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes, e, com o tempo, leva à má absorção de vitaminas, minerais e proteínas, resultando em deficiências nutricionais, os

Foto de Mae Mu na Unsplash Foto de Mae Mu na Unsplash

Os sintomas variam muito, desde desconfortos gastrointestinais como diarreia, inchaço, dores e náuseas até manifestações não digestivas, como cansaço excessivo, alterações de humor, infertilidade ou lesões de pele, como a dermatite herpetiforme. Essa condição se caracteriza por erupções cutâneas com coceira intensa e formação de pequenas bolhas, geralmente nos cotovelos, joelhos, costas e nádegas. Embora não atinja todos os celíacos, é um sinal clássico da intolerância ao glúten e costuma melhorar com a retirada total da substância da dieta.


Por ser uma doença muitas vezes silenciosa ou com sintomas inespecíficos, o diagnóstico pode demorar e deve ser feito com acompanhamento médico. A retirada do glúten da dieta antes da confirmação clínica pode mascarar os resultados e dificultar o diagnóstico. Por isso, é fundamental que qualquer mudança alimentar seja feita com orientação profissional.

Imagina você estar em uma reunião de família ou com amigos, onde todos estão comendo pizza, pães, bolos... e você só pode olhar ou precisa levar sua própria comida sem glúten. É triste. Portanto, é necessário conhecer o que de fato está por trás da retirada do glúten da dieta e não disseminar falsas informações nas mídias.


Como nutricionista e pesquisadora da dieta celíaca, minha principal sugestão é: devemos priorizar uma alimentação natural, saudável e equilibrada. Podemos consumir alimentos com ingredientes livres de glúten, mas não devemos confundir isso com a obrigatoriedade de ingerir tais produtos caso não haja uma restrição alimentar específica.

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