O estômago muda, e as bactérias acompanham
Um novo estudo mostra como microrganismos da boca alteram o ambiente do estômago

Durante muito tempo, aprendemos que o estômago era um ambiente quase estéril. Ácido demais, hostil demais, poucas bactérias conseguiriam sobreviver ali. Hoje sabemos que isso não é bem assim. E um estudo internacional recente mostra que, quando o estômago começa a mudar, as bactérias mudam junto.
A pesquisa analisou mais de 1.500 amostras de pessoas com metaplasia intestinal, uma condição em que o revestimento do estômago passa a se parecer com o do intestino e que aumenta o risco de câncer gástrico. O que chamou a atenção dos pesquisadores foi que, nesse estômago alterado, começam a aparecer bactérias que normalmente vivem na boca.
Em outras palavras, o estômago deixa de ser um ambiente fechado e passa a ser colonizado por microrganismos que não deveriam estar ali.
Isso não acontece por acaso. A metaplasia intestinal muda a estrutura das células, altera a produção de muco, modifica o pH local e transforma completamente o ambiente. Com isso, bactérias orais conseguem se fixar e permanecer. E essa colonização parece ter consequências importantes.
O estudo mostrou que essas bactérias estão associadas a alterações no sistema imune local. Em especial, a resposta imunológica da mucosa gástrica fica diferente, menos eficiente para controlar inflamação e mais permissiva a processos crônicos. Esse tipo de inflamação persistente é um terreno fértil para o desenvolvimento do câncer.
Os pesquisadores observaram que pessoas com metaplasia intestinal e alterações genéticas em células do sangue, um fenômeno ligado ao envelhecimento chamado hematopoese clonal, apresentavam maior colonização do estômago por bactérias da boca. Essas alterações no sangue parecem influenciar a forma como o sistema imune reage às bactérias, criando um ciclo perigoso.
Funciona mais ou menos assim, o estômago muda, as bactérias mudam, o sistema imune responde mal e, com isso, o ambiente fica cada vez mais favorável à progressão da doença.
Esse achado reforça uma ideia que vem ganhando força na ciência, o câncer não é causado apenas por mutações dentro das células, mas também pelo ecossistema ao redor delas. Microbiota, inflamação e imunidade fazem parte da mesma história.
Outro ponto importante é que essas bactérias não são apenas passageiras. Elas parecem se integrar ao tecido alterado, influenciando o comportamento das células e a forma como o DNA sofre danos ao longo do tempo. Isso ajuda a explicar por que algumas lesões pré-cancerosas avançam e outras não.
No futuro, mapear as bactérias do estômago pode se tornar uma forma de identificar pessoas com maior risco de câncer gástrico, anos antes do aparecimento do tumor.
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