O que um estudo de 25 anos revela sobre queijo e risco de demência
Relação entre gordura, alimentação e saúde do cérebro é mais complexa do que aprendemos
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Fim de ano é a época oficial das culpas alimentares. A mesa ainda nem foi posta e já começa o discurso mental sobre exageros, excessos e promessas de compensação em janeiro. Curiosamente, é justamente nesse período que a ciência às vezes nos lembra de algo importante, a realidade costuma ser mais complexa do que pensamos.
Um estudo publicado recentemente na revista Neurology acompanhou mais de 27 mil pessoas na Suécia por cerca de 25 anos para investigar a relação entre consumo de laticínios e risco de demência. Não foi um estudo curto, nem baseado em memória recente. Foi um acompanhamento longo, cuidadoso, com avaliação detalhada da alimentação e confirmação clínica dos diagnósticos ao longo do tempo.
O que os pesquisadores encontraram chamou a atenção. Pessoas que consumiam maiores quantidades de queijo integral e creme de leite integral apresentaram menor risco de desenvolver demência ao longo da vida.
Isso incluiu tanto a demência em geral quanto, em alguns casos, a demência vascular e a doença de Alzheimer. Já os laticínios com baixo teor de gordura não mostraram esse efeito protetor. Leite desnatado, iogurtes light e versões reduzidas em gordura não se associaram a menor risco.
Isso significa que comer queijo evita demência? Não. E é aqui que mora o ponto mais importante do estudo.
Estamos falando de um estudo observacional. Ele mostra associações, não causa e efeito. Pessoas que consomem mais queijo integral também podem ter outros hábitos, padrões alimentares, contextos sociais e estilos de vida que contribuem para esse resultado. Os próprios autores deixam isso claro.
O estudo também reforça algo que a nutrição vem redescobrindo nos últimos anos, o alimento não é apenas a soma de nutrientes isolados. Gordura não é só gordura. Queijo não é apenas gordura saturada. Existe uma matriz alimentar complexa ali, com proteínas, minerais, fermentação, compostos bioativos e interações metabólicas que não cabem em classificações simples como bom ou ruim.
Outro detalhe interessante é que o efeito do queijo foi mais evidente em pessoas que não carregam o alelo APOE ε4, um dos principais fatores genéticos de risco para Alzheimer. Ou seja, genética e alimentação conversam, mas essa conversa não é igual para todo mundo.
Durante décadas, aprendemos a demonizar a gordura sem perguntar o suficiente sobre contexto, qualidade, padrão alimentar e longo prazo. Trocar alimentos por versões light nem sempre significa melhorar a saúde, especialmente quando isso vem acompanhado de mais ultraprocessados.
No Natal e no Ano Novo, quando a mesa é também lugar de memória, afeto e vínculo, talvez valha lembrar que saúde não se constrói com medo. Comer com atenção, com prazer e com conexão social também faz parte de um padrão de vida saudável. A ciência, quando observada com calma, raramente pede extremismo.
Antes de transformar o queijo da ceia em vilão ou salvador, talvez a pergunta seja outra, como está o conjunto da sua vida, da sua alimentação. Isso, sim, é o que mais pesa quando falamos de saúde a longo prazo.
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