Collio: conheça a região da Itália que dá origem aos grandes vinhos brancos
Na divisa com a Eslovênia, colinas de origem marinha e uma longa convivência entre culturas ajudam a explicar a personalidade dos vinhos dessa pequena denominação do Friuli Venezia Giulia
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Antes de se tornar terra de vinhedos, o Collio foi mar. A lembrança desse passado está na ponca, formação de marga e arenito que se desfaz em pequenas lâminas e, por vezes, revela fósseis entre suas camadas. É sobre ela que crescem algumas das uvas responsáveis pela reputação dos grandes brancos italianos. Para entender esses vinhos, vale começar pelo chão.

Em outubro, participei de uma imersão nesse território do Collio, na região de Friuli Venezia Giulia, por ocasião da segunda edição do Collio Evolution. Entre visitas a vinícolas, conversas com produtores e degustações, pude conhecer melhor uma denominação que reúne, em uma área pequena, uma surpreendente diversidade de vinhos. A Pinot Grigio foi a variedade homenageada pelo evento, mas a experiência também ajudou a compreender o lugar que a acolheu.

O Collio ocupa uma faixa de colinas na província de Gorizia, no extremo nordeste da Itália, junto à fronteira com a Eslovênia. Entre os rios Judrio e Isonzo, seus cerca de 1.300 hectares de vinhedos se distribuem em uma paisagem de bosques, pequenos povoados e propriedades onde o trabalho passa de uma geração à seguinte. As influências italiana, eslava e centro-europeia aparecem nos nomes, na cozinha e na história das famílias.
Essa condição de fronteira ajuda a explicar a convivência entre variedades locais e uvas que chegaram de outras partes da Europa. Friulano e Ribolla Gialla dividem espaço com Pinot Grigio, e Merlot. A Pinot Grigio já está ali há tanto tempo que já faz parte da memória vitivinícola regional.
A vocação para os brancos é evidente: segundo os dados do Consorzio referentes a 2025, eles correspondem a 88% da área de vinhedos. Para além do número, chamou minha atenção a combinação de estrutura e frescor. São vinhos que podem ter volume, persistência e capacidade de evolução, mantendo uma acidez que lhes dá vivacidade e os aproxima da mesa.
O clima participa desse equilíbrio. Os Alpes Julianos ajudam a proteger a região das massas de ar frio vindas do norte, enquanto a proximidade do Adriático ameniza as temperaturas. A exposição das encostas, a ventilação e as diferenças térmicas entre o dia e a noite favorecem o amadurecimento das uvas e a preservação de seus aromas. Cada posição na colina acrescenta suas particularidades a esse cenário.

Sob as videiras, a ponca é uma das características mais importantes do Collio. Formada por sedimentos marinhos antigos, alterna margas, com componentes argilosos e calcários, e arenitos, originados da consolidação de areia. Essas formações foram elevadas ao longo da história geológica, dando origem às colinas atuais. Os pequenos fósseis encontrados nas rochas são vestígios concretos dessa transformação.
Quando exposta ao tempo, a ponca se fragmenta com facilidade. Suas camadas e fissuras permitem o avanço das raízes, enquanto a combinação de materiais influencia tanto a drenagem quanto a disponibilidade de água para a planta. O que parece uma pedra frágil na superfície participa de um sistema importante para o desenvolvimento das videiras.
Os produtores associam esse terreno à sapidez e à persistência dos vinhos. Na taça, essa sapidez pode ser percebida como uma sensação saborosa, por vezes descrita como salina, que prolonga o final de boca. Ela faz parte do vocabulário do Collio, embora não possa ser explicada como uma transferência direta do gosto da rocha para o vinho, é o conjunto de solo, clima, cultivo e vinificação que constrói o resultado.
Entre as variedades mais ligadas à região, o Friulano merece atenção especial. Costuma oferecer boa presença de boca, notas de ervas e um final que lembra amêndoas. É um branco à vontade tanto no aperitivo quanto à mesa, especialmente ao lado dos presuntos locais. Quem encontrar uma garrafa antiga com o nome Tocai Friulano estará diante dessa mesma tradição: a denominação Friulano passou a ser utilizada em 2007.
A Ribolla Gialla, conhecida como Rebula na Eslovênia, mostra outro lado do território. Permite elaborar desde brancos jovens e vibrantes até vinhos macerados de maior estrutura. É uma variedade de longa presença na região, com registros históricos que remontam à Idade Média, e continua no centro das interpretações de muitos produtores.
Há ainda o Collio Bianco, que merece ser procurado por quem deseja conhecer a denominação. Elaborado com variedades autorizadas pelo regulamento local, ele permite que cada vinícola componha sua leitura do território. As proporções e escolhas mudam de uma casa para outra; conhecer esses cortes é também conhecer a história e as preferências de quem os produz.
A Pinot Grigio, por sua vez, ocupa hoje 24% dos vinhedos do Collio. Sua origem está na Borgonha: trata-se de uma mutação de cor do Pinot Noir, cujos bagos adquiriram tonalidades acinzentadas e rosadas. Essa ascendência foi lembrada por Daniele Cernilli, referência da crítica vinícola italiana e fundador do DoctorWine, durante a masterclass dedicada à trajetória da variedade.
A presença da Pinot Grigio na Itália se consolidou no nordeste do país. No Collio, a introdução e a difusão de variedades francesas ganharam impulso na segunda metade do século XIX, com personagens como o conde Theodor de La Tour, ligado a Villa Russiz. Sua atuação faz parte da renovação dos vinhedos locais e ajuda a compreender como uma uva estrangeira passou a integrar a identidade regional.
Mais tarde, a projeção comercial do Pinot Grigio vinificado em branco, com a contribuição de produtores como Santa Margherita, ampliaria sua popularidade internacional. No Collio, porém, a variedade preservou também uma relação com a maceração, técnica que mantém o mosto em contato com as cascas. É daí que vem o ramato, cujo nome deriva de rame, cobre em italiano. Além do tom característico, esse contato pode conferir textura e uma delicada presença de taninos. Nas degustações, ele me pareceu uma das expressões mais interessantes da região, pela complexidade e pela versatilidade à mesa.
Os tintos também merecem uma pausa. A Merlot encontrou boas condições nessa parte do Friuli e pode dar origem a vinhos elegantes, com fruta bem definida e frescor. Em meio à fama dos brancos, é uma escolha que amplia a experiência de quem visita o Collio.
A gastronomia local oferece muitas oportunidades para explorar esses vinhos. Presuntos, carnes suínas, cogumelos e receitas de influência centro-europeia convivem com preparações mais delicadas. Os brancos de maior estrutura e os ramatos conseguem acompanhar pratos que vão além da associação imediata com peixes e frutos do mar. Acidez, textura e intensidade tornam-se guias mais úteis para a harmonização do que a simples divisão entre branco e tinto.
Essa identidade também é trabalhada coletivamente. Fundado em 1964, quatro anos antes do reconhecimento da DOC, o Consorzio Tutela Vini Collio atua na proteção da denominação, na pesquisa e na promoção dos vinhos. Sob a presidência de Luca Raccaro, iniciativas como o Collio Evolution aproximam produtores, imprensa e profissionais que escolhem e recomendam vinhos em restaurantes e enotecas.
Um detalhe nas garrafas traduz esse esforço: o nome Collio gravado no gargalo e a cápsula amarela identificam o modelo próprio adotado por produtores da denominação. É uma referência comum em um território onde cada vinícola preserva suas escolhas.
Na minha passagem pelo Collio, foi essa relação entre o trabalho individual e a identidade regional que mais despertou interesse. O Friulano, a Ribolla Gialla, a Pinot Grigio e a Merlot oferecem experiências distintas, mas dão motivos para continuar explorando a mesma origem. Voltei com vontade de reencontrar esses vinhos à mesa, com tempo para acompanhar o que mostram depois da primeira taça.
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