‘Um Brasil forte e unido é o desejo do governo e do povo do Nepal’, diz embaixador
Ao encerrar quatro anos de missão no país, embaixador destaca respeito à democracia brasileira, celebra os 50 anos das relações diplomáticas e aponta avanços em comércio, turismo e cooperação bilateral

Após quatro anos à frente da Embaixada do Nepal no Brasil, o embaixador Nirmal Raj Kafle faz um balanço de sua missão e destaca o fortalecimento das relações entre os dois países. Em entrevista ao R7, o diplomata falou sobre democracia, comércio, turismo, intercâmbio cultural e os 50 anos das relações diplomáticas entre Brasil e Nepal, estabelecidas em 1976.
Ao comentar o atual momento político brasileiro, Kafle ressaltou o respeito do Nepal à soberania e à escolha dos brasileiros e deixou uma mensagem em defesa da unidade do país.
“Isso só é possível por meio de um Brasil forte e unido. Esse é o desejo do governo e do povo do Nepal”, afirmou.
Quatro anos de missão no Brasil
R7 — Embaixador, depois de quatro anos no Brasil e agora chegando ao fim de sua missão, que balanço o senhor faz desse período? Quais considera as principais conquistas nas relações entre Nepal e Brasil?
Nirmal Raj Kafle — Muito obrigado, senhora Fabiana. Muito obrigado por me receber hoje. Foi um grande prazer trabalhar com você durante os quatro anos em que servi aqui.
Nepal e Brasil são grandes amigos. Temos muitas coisas em comum. Temos trabalhado juntos em diferentes agendas de interesse comum. Existe muita solidariedade entre nós e recebemos um enorme apoio do Brasil durante os momentos difíceis que enfrentamos. Por isso, somos realmente gratos ao governo e ao povo brasileiro.
Meus quatro anos como embaixador foram muito gratificantes. Alcançamos muitas coisas. Construímos sobre as bases que já haviam sido estabelecidas para fortalecer os laços entre os dois países. Essas conquistas não ocorreram apenas nas relações políticas bilaterais, mas também nas áreas de comércio, investimentos, relações entre as pessoas, cultura e turismo.
Turismo e brasileiros no Nepal
R7 — Na área do turismo, quais avanços o senhor observou durante sua missão? Há um número significativo de brasileiros visitando o Nepal?
Nirmal Raj Kafle — Os brasileiros são ávidos praticantes de trekking. São turistas de aventura. Todo brasileiro tem no sangue uma espécie de disposição para viver alguma aventura, e o Nepal é um lugar perfeito para eles.
Temos montanhas, muitas montanhas. Aqueles que já visitaram o Nepal, ou mesmo os que ainda não foram, têm essa curiosidade e uma inspiração interior de que deveriam visitar o país e percorrer trilhas ao redor do Monte Everest ou de outras áreas do Himalaia.
Em termos de números, permanecemos acima de 3 mil visitantes por ano e, considerando a distância entre os dois países, acredito que seja um número expressivo, porque o custo é alto e a distância é longa. Mesmo assim, temos essa quantidade de brasileiros.
Temos promovido o Nepal em diversas ocasiões para atrair mais turistas brasileiros. E os turistas não são apenas uma fonte de renda para o Nepal, mas também se tornam embaixadores da boa vontade do Brasil no país. Eles fortalecem as relações entre as pessoas, ampliam o entendimento entre os dois países e tornam-se amigos para sempre.
Nepal além das grandes trilhas
R7 — O Nepal é mundialmente conhecido pelo Himalaia e pelo turismo de aventura. Mas o país também oferece alternativas para pessoas que não podem ou não desejam fazer longas trilhas?
Nirmal Raj Kafle — Eu diria que o Nepal é para todos e para todos os propósitos. Mesmo pessoas mais velhas podem se aproximar das montanhas utilizando aviões e fazendo pequenas trilhas de acordo com sua escolha e capacidade.
E não apenas pessoas mais velhas. O Nepal iniciou inclusive um turismo especial para pessoas com necessidades específicas, que utilizam cadeiras de rodas ou muletas. Existem instalações e rotas de trekking que atendem às necessidades desses grupos.
R7 — Para um brasileiro que queira conhecer o Nepal, como é normalmente feita a viagem até Katmandu? E, chegando à capital, qual é a distância até o Himalaia?
Nirmal Raj Kafle — Normalmente, a região do Golfo é o ponto de conexão para brasileiros que visitam o Nepal ou para nós quando viemos para cá.
Daqui até o Catar ou Dubai, são cerca de 16 horas e, depois disso, apenas mais quatro horas.
Quando você chega a Katmandu, já consegue ver o Himalaia ao norte. Se subir um pouco, poderá ver toda a cadeia do Himalaia. Mas, para chegar mais perto das montanhas, é preciso caminhar, fazer trekking e dedicar alguns dias do seu tempo e energia.
Educação, cultura e relações entre os povos
R7 — Além do turismo, como estão as relações entre as sociedades dos dois países? Houve avanços no intercâmbio cultural e acadêmico entre Nepal e Brasil nos últimos quatro anos?
Nirmal Raj Kafle — A diplomacia pública é uma parte do nosso trabalho. Temos promovido a imagem do Nepal aqui e, ao mesmo tempo, levado para o Nepal aquilo que podemos aprender com o Brasil.
Estamos promovendo os vínculos entre as pessoas e os laços culturais por diversos meios. A educação, como você mencionou, é uma das áreas que devemos explorar.
Neste momento, não temos muitos estudantes estudando aqui, mas há alguns que vêm e querem aprender mais com o Brasil. Eles também visitam o Brasil. As pessoas que têm condições vêm visitar o país.
O Brasil está próximo do coração deles. Por exemplo, o futebol brasileiro os atrai, assim como o Carnaval, o samba, a cultura, as pessoas e o modo de vida daqui. Tudo isso desperta interesse no Nepal. Existe muito respeito e curiosidade em relação ao país e ao povo brasileiro.
Comércio entre Brasil e Nepal
R7 — No campo comercial, quais são atualmente os principais produtos brasileiros importados pelo Nepal? E quais áreas apresentam potencial para ampliar essa relação?
Nirmal Raj Kafle — Neste momento, o comércio bilateral está crescendo. Principalmente, nós importamos do Brasil. A principal importação brasileira é a soja e os produtos derivados da soja, por exemplo, o óleo de soja.
No Nepal, importamos daqui soja bruta e produtos semielaborados, depois fazemos o refino e exportamos para outros países, como a Índia, utilizando facilidades tarifárias e regras de origem.
Portanto, o Brasil tem sido uma das importantes fontes de soja para o Nepal. Além da soja, também importamos máquinas e alguns outros produtos.
R7 — Que tipos de máquinas e equipamentos entram nessa relação comercial?
Nirmal Raj Kafle — Máquinas de diferentes tipos. Em determinado momento, tivemos a Embraer, aeronaves, e peças de aeronaves também constituíram parte desse comércio.
‘O Brasil é incrível’
R7 — Depois de quatro anos vivendo no país, como o senhor definiria o Brasil em poucas palavras?
Nirmal Raj Kafle — Não há palavras capazes de descrever o Brasil. É um grande país, um país de dimensões continentais. O Brasil é incrível, assim como são incríveis as pessoas do Brasil.
Então eu usaria a palavra “incrível”. É a palavra que mais se aproxima. É incrível.
‘Um Brasil forte e unido’
R7 — O Brasil acaba de passar por eleições democráticas e inicia uma nova etapa de sua vida política e institucional. Sem entrar nas disputas internas do país, que mensagem o senhor deixaria aos brasileiros e às autoridades que assumirão seus mandatos?
Nirmal Raj Kafle — Claro. Tanto o Nepal quanto o Brasil são países democráticos. O respeito à vontade do povo — e a vontade do povo é definitiva — e à soberania são de importância primordial para ambos os nossos países.
Respeitamos a soberania do povo brasileiro e sua vontade de escolher o governo de sua preferência. Essa é a principal característica da democracia.
O povo do Nepal tem grande respeito pela democracia brasileira, assim como nós também somos uma democracia que está fortalecendo suas instituições democráticas. Existem muitos desafios em nosso país, como vocês observaram no passado, mas estamos consolidando os esforços que temos feito para fortalecer e institucionalizar as instituições democráticas.
O governo do Nepal sempre deseja que o Brasil seja próspero, democrático e um líder na América do Sul, não apenas na região, mas também nos fóruns globais.
“Isso só é possível por meio de um Brasil forte e unido. Esse é o desejo do governo e do povo do Nepal.”
50 anos de relações diplomáticas
R7 — Há algum tema que considere especialmente importante destacar ao concluir sua missão no Brasil?
Nirmal Raj Kafle — Este ano marca o 50º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre Nepal e Brasil. Em 1976, nossos dois países estabeleceram relações diplomáticas, e 50 anos frutíferos se passaram.
Alcançamos muito nesses 50 anos. Temos embaixadas residentes nas duas capitais. Cooperamos não apenas no nível bilateral, mas também no nível multilateral.
Estabelecemos um mecanismo de consultas bilaterais, um mecanismo que discute regularmente todas as questões entre os dois países. E estamos satisfeitos porque a próxima rodada de reuniões será realizada pelo Nepal em um futuro próximo.
Essa é uma mensagem importante. Por ocasião do 50º aniversário, nossos dois ministros das Relações Exteriores trocaram mensagens de felicitações.
Nosso ministro, o honorável Bisheshwar Khanal, parabenizou o Brasil pelas conquistas alcançadas em todas as áreas e apresentou seus melhores votos pela continuidade de seu progresso e prosperidade, reafirmando seu compromisso de trabalhar estreitamente com o ministro Mauro Vieira para elevar ainda mais nossas relações.
Ele também ressaltou a necessidade de trabalharmos juntos em importantes agendas globais, como mudanças climáticas, multilateralismo e uma ordem internacional baseada em regras.
Da mesma forma, Sua Excelência Mauro Vieira apresentou seus melhores votos ao Nepal e também manifestou o compromisso do governo brasileiro de trabalhar estreitamente com o Nepal para elevar ainda mais nossas relações, além de estender apoio ao Nepal no espírito da cooperação Sul-Sul.
Como você sabe, ele também se comprometeu a apoiar o Nepal por meio da ABC. Atualmente existe um projeto em andamento no setor de leite com a cooperação do Brasil.
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