A barbárie adulta sobre um torcedor de 9 anos

De novo (ou até quando?), a brutalidade extravasa no ambiente futebolístico e medíocres acéfalos traumatizam um garoto e seu pai

O garoto Bruno com o jogador Diego Tardelli

O garoto Bruno com o jogador Diego Tardelli

Divulgação/Santos

Achei, talvez ingenuamente, que não voltaria ao tema tão cedo. Afinal, são apenas duas semanas que separam um arrazoado sobre a questão da violência no ambiente que cerca o futebol deste novo e, infelizmente, triste traçado de um tosco episódio.

Quem não viu, que procure detalhes nas redes, portais, sites. Aqui um atalho, mas volte.

Como bem disse Cosme Rímoli além de outras reflexões por ele postas, “A selvageria precisa ser banida do futebol deste país”. E tal qual descrevi o sapiens há 15 dias, “você’ que não sou eu, não comunga comigo, não compartilha das minhas ideias e paixões, é meu inimigo por ‘natureza’ e pronto”. Precisa dizer mais alguma coisa?

Certeza que sim. Continua o primitivo que habita em nós (sou sapiens também mesmo não torcendo para nenhum time e não querendo fazer inimigos por aí) a promover atentados contra a dignidade alheia, quando não à própria vida de outro ser humano.  Se não mata simplesmente outro indivíduo da mesma espécie (ou seja, um semelhante) por este espécime ‘ser de outro time’(!), machuca o físico e não deixa, lógico, de atingi-lo emocionalmente quando braços, pernas ou pedaços de paus não o alcançam.

As incontáveis repetições, mundo afora, da sequência das imagens nas quais o goleiro do Palmeiras entrega sua camisa para um garoto de 9 anos de idade que é torcedor do Santos mas seu fã, causaram literalmente a sensação contrária que a civilidade clama. O que deveria ser um momento de amor, de carinho, de respeito, de ternura, de dádiva, de emoção para ambos e aos que os circundavam à margem do gramado (inclusive o pai do menino), rapidamente teve seu sinal invertido.

Chegou a ser inacreditável o que os meus e milhões de outros olhos enxergaram naqueles instantes. Como num clique, demais santistas, adultos, cercaram pai e filho e começaram a ameaçá-los para que desfizessem a cena de amor, de carinho, de ternura, de dádiva, de emoção. Partiram para xingamentos e ameaças, causando danos enormes aos corações dos que viram a cena, afora, sem dúvida alguma, aos do pai e do filho, que horas depois recorreram às redes sociais para, vejam o absurdo da ‘desonra’...pedir desculpas! O medo, de lógica incontestável, e o instinto de sobrevivência em meio ao caos socioemocional no qual estamos, sociedade, mergulhados, invocaram súplicas de quem deveria ser louvado pelo protagonismo, de novo, de amor, de carinho, de respeito, de ternura, de dádiva, de emoção.

Entre mortos e feridos, e mensagens de amor, de carinho, de respeito, de ternura, de dádiva, de emoção vindas de jogadores profissionais, dirigentes do futebol, clubes, técnicos e demais celebridades de vários setores e cantos do planeta, fica a história de um menino que, hoje, com a família, luta para se livrar de um trauma psíquico inequívoco. Imaginemos, por um breve momento de empatia, se fôssemos garotos olhando de baixo para cima nosso ídolo e, após um momento de amor, de carinho, de respeito, de ternura, de dádiva, de emoção, tivéssemos que sair correndo debaixo de ameaças de morte e de xingamentos com nosso pai ao lado, apavorado, sem saber exatamente como nos salvar da selvageria.

Punição, na forma da lei, aos promotores desta barbárie contra a cabeça e o coração desta criança de 9 anos de idade, é um mínimo do mínimo.

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