Logo R7.com
RecordPlus
Eduardo Olimpio

A distinção que mora em cada um de nós

Adereços, elementos químicos e pulsão moldam um diferente estado de ser 

Eduardo Olimpio|Do R7

  • Google News
Todas as tribos sempre usaram símbolos e adereços atados à pele
Todas as tribos sempre usaram símbolos e adereços atados à pele

A identidade física de cada ser humano, como ele expressa sua maneira de enxergar o mundo e manifestar valores, sua relação com as demais pessoas e ambientes. Tudo, absolutamente tudo que invade o indivíduo, modificando-o para depois fazer o caminho de volta ao mundo exterior, tem no corpo humano um dos seus maiores veículos, senão o único, a condensar este entra e sai de pensamentos e substâncias.

Nenhuma manifestação da personalidade, seja intelectual ou física, poupa um movimento, mínimo que seja. Experimentos artísticos são comuns mundo afora nos quais o próprio corpo do artista, quando não o do outro, sugere uma tela em branco nos pincéis de um pintor, um barro ainda sem forma no estilete do escultor, e assim por diante. Se olharmos pela espiritualidade, outra morada a que a carne se mostra apta é a da alma. Há incontáveis leituras que são encontradas nas muitas civilizações dando conta – ou tentando dar – de como nós nos ‘dividimos’, ‘divinizamos’ e vibramos.


Tribos de todas as coordenadas geográficas sempre usaram, ao longo dos milênios, símbolos e adereços atados à pele e a seus muitos orifícios para demonstrar suas crenças, medos, homenagens e devaneios, dentre outras inúmeras formas de análise. Tatuagens e pigmentações, assim como moldes na boca e orelhas, por exemplo, se fazem presentes no cotidiano da Antiguidade até nossos dias.

Contudo, mesma se respeitando – e muito – as mais variadas formas da expressão humana através do corpo, vimos ao longo das épocas materiais literalmente introduzidos pela pele que chamam a atenção. Podemos arriscar o palpite de que são para saciar a necessidade sobre-humana de pessoas que, buscando diferenciarem-se umas de outras, de certa maneira até abusam da capacidade das coitadas das células.


São línguas bifurcadas (cortadas ao meio) e bolas de aço, compostos sintéticos salientes a adornarem cabeças, peitos, ombros, braços, antebraços, mãos, coxas, panturrilhas e outros cantos numa clara aproximação a forma de répteis ‘exóticos’ como serpentes e lagartos, sem contar a tintura na esclera (o ‘branco dos olhos’ ) e na íris, mudando sua cor de nascença. É o corpo como ‘lugar’ da exibição máxima de uma identidade.

Noutra ponta desta mesma corda, a vaidade tem lá sua grande presença no dia a dia de cada um de nós, sendo exercitada de forma múltipla há milênios. E é em nome dela, por vezes, que pessoas de diferentes identidades de gênero injetam em seus corpos substâncias químicas, lícitas ou não, seguras ou não como cosméticos, silicone, medicamentos para aumentar a massa muscular etc.


Ao que parece, além da necessidade social de se expressar de alguma forma, artística ou não, o homem primitivo e o contemporâneo se entrelaçam no tempo para buscarem, por meio do corpo e de seus múltiplos usos, algum traço de felicidade, de distinção dos demais terráqueos, que faça algum sentido do existir para além da mesmice alheia.

Sendo o corpo humano um meio, um canal para as citadas finalidades, ou um ponto e chegada em si para dar conta da vida materialmente falando, os riscos que se correm tanto numa abordagem como em outra aparentemente justificam-se; se assim não fosse, não teríamos homens verdes, pontiagudos, malhados, modificados andando por aí.

Esse mosaico é próprio da natureza humana e presente o tempo todo na escala evolutiva da espécie. De fato, não somos idênticos apesar de termos características tão específicas que nos diferenciam dos demais seres vivos. E, se pararmos pra pensar, por mais que tenhamos ídolos no reino animal (incluindo homens e mulheres, lógico), ninguém quer ser igualzinho ao outro. Todo mundo quer seu lugar de destaque dentro deste repetitivo esquema gráfico humano formado de cabeça, dois braços, dois olhos, duas pernas, dois pés...e por aí vai.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.