A etiqueta ‘made in Brazil’ que incomoda a pele
O famoso jeitinho brasileiro de se resolver a vida nos consome
Eduardo Olimpio|Do R7
Dia 02 de janeiro de 2020 e um título de reportagem deste portal: “Motorista pinta meio-fio de branco após estacionar em local proibido”. Poderia ser, tranquilamente, mais um entre outros tantos enunciados jornalísticos com o mesmo enredo que nos leva ao Brasil mais arcaico que se tem notícia.
O país do tal ‘jeitinho’ pra tudo, cujo adjetivo ‘brasileiro’ se uniu de tal forma como se tivessem nascidos juntos e misturados (não teria sido assim mesmo desde o Brasil Colônia, pelo menos...?), tem um vasto repertório literário e histórico que dá conta de trazer à luz incontáveis situações nas quais pessoas, geralmente descritas como ‘de bem’ - mas com algum pequeníssimo desvio de caráter, afinal, que não o tem, não é mesmo...!? – acabaram resolvendo seus míseros problemas por um caminho menos burocrático/ortodoxo/legalista, leia como quiser.
É sempre pedagógico lembrarmos de personagens do mundo real e da ficção - muitos destes inspirados em seres de carne e osso -, não necessariamente de seus nomes, mas de suas errantes maneiras de lidar com os embaraços cotidianos. Saber o que se faz de improviso para resolver uma situação sem que ferramentas adequadas estejam disponíveis é uma coisa bem diferente de, tendo os meios para solucionar determinada ocorrência, escolher o caminho aparentemente mais rápido, fácil, barato e invariavelmente mais danoso.

É óbvia a constatação seguinte: o Brasil passa por transformações nas mais variadas áreas de sua vivência como nação, com a sociedade, a política, a economia e a educação, entre outras, em contínuas idas e vindas, avanços e retrocessos. No entanto o que parece ser uma forma imutável de se ver e analisar o país e o brasileiro por analistas internos e estrangeiros é a maneira como nós, estes mesmos brasileiros, fazemos para ‘dar um jeito’ em inúmeras situações que julgamos, coletiva ou individualmente, como sendo contra nós, nossa existência, opção ou mesmo nossa noção de bom senso. Além disso, se formos olhar como fazemos para burlar ‘o sistema’, a conclusão mais clássica é que assim agimos porque ele é duro, precário e injusto, e por isso acabamos por legitimar a criatividade quase sempre criminosa, por menor que seja, para enfrentá-lo. Em outras palavras, não dá para discordar muito do que pensam da gente.
Não preciso, francamente, ilustrar com ‘causos’ aqui neste espaço o tamanho da coisa. Mas, para não ser acusado de dizer sem exemplificar – como se já não bastasse somente o título que mencionei sem que se necessite ler tudo para saber do ato do dito cidadão –, basta fazermos um exercício simples de rememoração individual para pinçarmos de nossos currículos um ou outro ato desabonador, algo feito pra que alguma vantagem levássemos num pequeníssimo instante no tempo a fim de ‘nos darmos bem sem prejudicar a quem’.
Paralelo a isso, há uma espécie de hipocrisia coletiva que nos ronda...aliás, duas, que formam uma explosiva dupla que detona tentativas de ver a coisa funcionar como deve. Na política, ‘exigimos’ mais serviços públicos de qualidade e fingimos sonhar com um país melhor, mais eficiente, menos corrupto e feito de operadores comprometidos moralmente com a coisa pública. Na espiritualidade (incluo a moral individual e a ética coletiva), clamamos pela purificação das almas e cérebros. E o que vemos a qualquer direção que apontemos nossos sensores é o brasileiro dando seu ‘jeitinho’ nas coisas para se sair bem diante do obstáculo que, de alguma forma, o faz sentir-se injustiçado de um lado e esperto do outro quando o contorna ou esconde, sem enfrentá-lo como deveria.
Não queria concluir a reflexão pensando que estamos determinados a ser, eternamente, o infeliz Pedro Malasartes.












