A liberdade como clamor e valor eternos

Palavra singular por seus valores, a liberdade é única e múltipla ao mesmo tempo, seja em qualquer momento que a visitemos na história

A liberdade de expressão é um atributo exclusivamente humano e atravessa nossa existência

A liberdade de expressão é um atributo exclusivamente humano e atravessa nossa existência

Rudy e Peter Skitterians/Pixabay

A qualquer tempo que peguemos na história vamos pinçar temas humanos existenciais que naturalmente estiveram datados em seus respectivos períodos e costumes, e nunca saíram de cena por provocarem nossas almas e cérebros diante de suas mil maneiras de realizações. Ou seja, a vida corre como sempre correu, mas muito do que se viveu e vive continua a ter um importantíssimo espaço dentro de nossas naturais reflexões de como somos ou agimos.

A discussão em torno da liberdade, ou de seus significados não dicionarizados, é um desses atributos exclusivamente humano que atravessam nossa existência sem que tomemos uma única explicação para eternizá-la. Tudo indica que cravar uma tradução de suas inúmeras faces tende a ser uma aberração quando estamos a tentar lidar com algo de reconhecida multiplicidade e mutabilidade. Um único conceito de liberdade que dê conta de abraçar sua intrínseca complexidade, causada por variantes ligadas à ideia de posse, direito individual e essencial, de vida em sociedade, do poder de uns sobre outros, por exemplo, estará para sempre no campo das impossibilidades.

Não sou eu quem determina isso, mas a gramática dos fatos que nos antecederam e que se mostraram modificáveis justamente por sua dinâmica de valores quando aplicados. Na Antiguidade, por exemplo, falar em escravidão na Grécia, em Roma ou mesmo no Egito é ler que o direito a posse de uns pelos outros era respeitado no mundo ocidental, com o inequívoco aval do Estado. Já na Modernidade, vê-se que as liberdades devem ser moderadas pelo ente estatal e que o regimento jurídico, de alguma forma, abraça o direito individual de existir por si, livre, sem que a posse dos corpos por outros seja consentida ou tolerada.

Há aqui um gigantesco recorte na passagem do tempo. Caberiam mais semanas e semanas de descrições e demais contribuições dos pertinentes leitores para avolumar em nossas mentes um mundo de ideias e ações que puseram o conceito e a vivência da liberdade a prova, de novo, nos tempos em que estamos, com comportamentos e ditados que nos tonteiam de tão díspares que são na atualidade. Nos falta capacidade organizacional para cumprir tal façanha e nem é o propósito.

Mas a liberdade de voltarmos ao tema existe, e ela sempre estará em algum momento presente, mesmo que mantenha sua natureza mutável como disse antes. Isso me soa inteligente, uma vez que pensadores de diversas escolas teóricas que tentaram forçosamente grafar em definitivo o significado desse substantivo feminino, correram o natural perigo de caírem nas armadilhas conceituais que pautavam seu tempo em cima de comportamentos sociais e políticos temporais. Ainda bem que assim fizeram, e ainda bem que sucessores os seguiram ou os aniquilaram em suas teorias e vivências.

No espectro social, grupos guerreiam entre si para conquistá-la ou simplesmente mantê-la minimamente, em nome do prazer associado de sua realização, ainda que recortada pois a plenitude das duas coisas juntas é de difícil gestão. No cosmo individual, também se luta pela primazia de poder opinar o que quiser e sobre o que desejar, pela liberdade de se vestir, de votar, de amar. Isso mexe profundamente a areia do fundo das tradições, dos direitos humanos, dos regimes políticos e do meio ambiente com todos os bens sociais atribuídos. Pensemos, em um caso, em que um sitiante tem no fundo de sua pequena propriedade rural um curso ou nascente d´água, que é um bem público. Tem ele a liberdade de aterrar o leito ou matar um nascedouro para ampliar sua plantação e assim prover mais comida à comunidade? Ou só para aumentar seus lucros? Numa outra leitura, poderia ele assorear para construir uma área de lazer para sua família já que é o ‘dono’ do espaço?

Termino, mas sem esgotar, com mais uma questão: muitas opções na forma de se bem viver, calcadas na liberdade de poder escolher — dentro de um sistema materialmente seguro — o que querer fazer quando crescer, liberta ou oprime? Kierkegaard, filósofo pai da escola existencial no século 19, diria que a liberdade gera angústia porque demanda ‘ter’ que escolher. Ter liberdade total é ter desconforto?

Voltando ao seio do debate enquanto sociedade, o Estado tem o aval de criar balizas e barreiras quando age em dever de intervir no direito e desejo individual para, por exemplo, não deixar matar; quando não evita, pune o autor, tirando-lhe justamente um dos valores que muitos julgam como absoluto mesmo não sendo, que é a liberdade, no caso, de ir e vir.

A liberdade não nos dá o direito de fazer tudo que desejamos.

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