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Eduardo Olimpio

A quem interessa a escravidão moderna?

Produção manchada com o sofrimento humano sem rosto nem nome ainda move um capitalismo de mão de obra serviçal e desassistida

Eduardo Olimpio|Do R7

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A quem interessa a escravidão moderna?
A quem interessa a escravidão moderna?

Em meados de 1600, o filósofo inglês Thomas Hobbes escreveu um catatau de folhas intitulado Leviatã na tentativa de, sinteticamente, provar que o ser humano deveria viver sob a espada do Estado empunhada por um governo relativamente tirano em cima de sua cabeça a fim de que não cometesse atrocidades em seu bárbaro convívio com os seus semelhantes.

Para ele, na minha livre análise não necessariamente concordante no todo, o Homem apresenta uma natureza originalmente hostil e livre demais para que possa exercer o espírito de vizinhança sem querer massacrar os seus fronteiriços; daí, sugere o pensador, a ideia é que possamos, então, "vender" uma parte de nossa liberdade (no caso, à época, a um rei) em troca dessa proteção e "intermediação" mútua de um ente acima de todos. Na obra, Hobbes resgata uma frase que ele tornou a deixá-la eternizada, como se possível fosse, já que seu autor verdadeiro, o romano Tito Mácio Plauto, se encontra, em pleno século 17, já sepultado há pelo menos 1.700 anos. Guardemos as palavras: "O homem é o lobo do homem".


Independentemente de ser essa a explicação tácita para termos tão fortes quando dispostos nessa ordem frasal, dá para imaginar uma lista grande de coisas que acontecem em todos os tempos verbais que envolvem ações de pessoas sobre a vida de outras.

A escravidão, por exemplo, tão massificada por milhares de anos e milhões de humanos de alguma maneira empoderados desde a Antiguidade, foi uma das formas comum e culturalmente usadas para que sociedades dominassem populações a fim de que destas pudessem se servir. Isso ocorreu em diversificada latitude e longitude, tanto nos lugares mais inabitados e inóspitos quanto nos chamados berços civilizatórios como Grécia, Roma e Egito antigos, além de muitas outras terras entre a Europa e o Extremo Oriente.


Tomavam-se à força as vidas alheias para canalizarem nelas as maiores deturpações do caráter psíquico, físico e territorial (do espírito e do corpo). Derrotados de guerras, pobres, mulheres, crianças, jovens, "exóticos" tribais como não brancos e não "aculturados" foram escravos para toda obra. Edificações faraônicas, barragens e alterações de cursos de água, serviços sexuais, de limpeza de dejetos reais e lavouras diversas, entre outras frentes, coroaram boa parte da história escravocrata humana sobre a Terra.

Apesar da chaga que é toda e qualquer privação de liberdade conquistada pelo açoite de cada época, e mesmo a distância dos fatos e do método das piores atrocidades, até dá para entender, contextualizando, que o Homem, um dia, subjugou seu semelhante para pôr em prática suas mazelas interiores, muitos em nome de divindades espirituais e até de sagrados de carne e osso.


Por falar em carne e osso, quanta dor não deve ter sentido cada músculo, cada dedo decepado, cada osso exposto, cada dente arrancado, cada mente inconformada com sua condição miserável de cativa? Alguém já se imaginou privado de sua liberdade nestes termos desumanamente alongados, danosos em qualquer dos sentidos físicos e psíquicos? Tinha gente que nascia escravo, vivia assim até sua "velhice" de 40 e poucos anos e morria sem saber-se humano, pois via-se coisa, propriedade, máquina encadeada no seu espectro ao redor.

Hoje, forçosamente descontextualizando pela iluminação que deveria reger ao menos as cabeças mandantes, o que é inaceitável é ver, ainda preso na contemporaneidade, ocorrências incontáveis de cárcere privado seja lá por quaisquer argumentos (meta)físicos, escravidão por dívida do trabalhador com o empreiteiro, jornadas exaustivas de trabalho como ocorre hoje nas carvoarias, olarias, oficinas de costura e bordéis sem eira nas beiras de estrada vicinal e garimpo ilegal e até em casas de madames "gente fina". E, como pai de tudo, o analfabetismo, a miséria humana, a complacência, a falta de empatia, o individualismo e a ausência do Estado e do peso da lei.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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