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Eduardo Olimpio

A realidade invisível e a mecânica das revelações

Certas presenças precisam ser percebidas pelos caminhos nas ruas, inclusive a nossa  

Eduardo Olimpio|Do R7

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Há uma lei da Física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo. Se fôssemos traduzir isso levando em consideração a apropriação do espaço público, nos dias de hoje essa máxima da ciência cairia por terra. Por que?

Fácil e triste de entender. Seja pela violência rural e urbana, por avanços nas telecomunicações que permitem visualizarmos amigos e amores numa tela de celular em tempo real ou pela falta de uma cultura de ocupação das praças, parques e outras áreas e instalações públicas — que, a grosso modo, não são de ninguém (a mais pura falsidade pois têm dono sim, e somos nós, todos nós) —, as pessoas se encontram, namoram, trabalham, se divertem, aprendem e ensinam umas às outras cada vez mais no mundo virtual.


Na ausência de seres humanos que andam pelas ruas para dar cabo de suas necessidades, deveriam saltar aos olhos dos que ainda restam na trilha os que, sob o teto de céu, fazem sua mesa de almoço, seu banheiro e quarto de dormir; na maior parte do tempo, sua sala de estar. Na maioria destes indesejados ‘matches’ teríamos que perceber que há uma massa de pessoas que perambulam, quase que exclusivamente, para abastecer-se do tempo presente (já que o passado a elas e a nós escapa e o futuro...bem, deixemos pra lá!).

Invisíveis, esses corpos que carregam dentro e em cima, respectivamente, coração e cabeça, apenas cruzam nossos olhos ou incomodam as células do nariz por simplesmente existir, e enquanto teimam nisso, nessa permanência no raio de (in)ação, nos 3, 4 segundos seguintes já escapam à nossa atenção, acostumados que estamos à presença desse tipo de gente que, afinal, não existe. Um minuto de reparo neles, então, beira a candidatura ao Guinness, o livro dos recordes!


Volto ao princípio nada lógico e científico dos vazios. De que adianta termos meios tecnológicos para evitarmos o esgoto a céu aberto ou um poste sem lâmpada se não aprendermos a novamente andar socialmente em bandos humanos? Tudo bem também, vai, se a migração das relações interpessoais, econômicas e culturais para o espectro digital se concretizar. O importante é prestar atenção ao ‘também’ para não largarmos, de vez, a realidade tridimensional que nos trouxe até aqui com pés, mãos e bocas de verdade.

E para não perder de vista a vida como ela é, se não fosse um equipamento tecnológico chamado câmera que recentemente viu, na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, o assassinato a sangue frio de uma mulher (supostamente moradora de rua ou em situação de rua) que abordou um homem e por ele foi baleada com ao menos dois tiros, não teríamos o desprazer (ou dor ou nojo) de, nos 3, 4 segundos seguintes, acompanhar o assassino guardando a arma e tocando sua vida em frente a passos normais, com apenas uma olhadela para atestar se, de fato, aquele corpo, caído, não o incomodaria mais.

A lei da gravidade, que no caso foi consequência da lei da ação e reação, são mais duas livres e tristes traduções da Física de Newton.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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