A urgente escalada de um nova era político-administrativa
Não é novidade a ninguém que, infelizmente, não temos inovações a celebrar no campo prioritário de nossas vidas que é a política de cuidar
Eduardo Olimpio|Do R7

A democracia, dentre outras tantas definições dicionarizadas, pode ser vista ou entendida como uma boa casa para se viver, com direito a usar os cômodos todos onde se pode comer, usar água limpa e encanada, dar descarga e dormir sob um teto seguro. Nela, há de se rachar as despesas com as demais pessoas como compras de insumos e investimentos em infraestrutura e, de tempos em tempos, sentar-se em rodas de conversas para decidir, por maioria, quem fará a gestão da rotina dela, pagará as contas, gastar quanto e onde.
Se nela residem duas ou mais famílias, é natural então que um administrador seja eleito por um determinado período para gerenciar os interesses e as necessidades deste coletivo habitacional.
Tudo muito normal, quase tribal. Tão natural deveria ser também o entendimento de que, para uma sucessão de gestões mais democrática nesta moradia, coisas reconhecidamente boas feitas pelo gerente deveriam ser mantidas ou mesmo aprimoradas, caso houvesse o entendimento de que a casa estivesse cumprindo sua função social. Além de abrigar, ter água encanada, esgoto coletado e um telhado e forro, seria comum e justo com os moradores pagantes das despesas que o líder proporcionasse um espaço adequado para a educação de todos, fizesse de outro um lugar eficiente de atendimento médico, propusesse uma política pública de distribuição de renda per capita mais equalizada e suficiente para cada um prover-se de suas necessidades básicas e, claro, um quintal para diversão e lazer.
Percorrendo os entremeios dessa habitação, deveríamos gozar de uma área de serviço para lavar a sujeira que emporcalha a vivência, talvez um canto de orações para quem for das orações e, necessariamente, um porão, para nele deixar o que não presta, o que corrói a coexistência, o que machuca causa danos pessoais e materiais, depreda, rouba, mata.
Tanta complexidade dessa normalizada e utópica experiência comunitária nos leva a vislumbrar que, como já citado, uma alternância de poder é sempre bem-vinda, para revigorar, trazer novas ideias ao debate e uma energia e agenda diferentes na casa para levá-la adiante a contento. Em contrapartida, também é por aí que pode começar uma série de problemas quando uma família acaba, por sucessão direta tal como uma capitania em tempos idos, se perpetuando no poder por omissão dos demais moradores que não participam desse cotidiano civilizador, ou por uma obscura força cuja origem não está alicerçada nos argumentos ou feitos.
Mesmo sendo um cenário já ruim pela apropriação do assento sem oposição alguma, a coisa pode piorar quando a falta de transparência nos atos administrativos desta enorme morada afloram junto a denúncias de crimes praticados pelo clã, que pipocam na sala de despachos de onde o núcleo familiar do mandato fabrica, dia após dia, o caos no lar doce lar.
Descrevo este cenário e encenação toda para constatar que a falta de originalidade, de uma discussão madura e voltada aos verdadeiros interesses de uma nação que busca, há não mais que 2 séculos, emancipar-se econômica e culturalmente, prejudica a todos os ‘moradores’ desta ocupação. A poucos meses de uma das mais importantes eleições diretas no Brasil desde a redemocratização reconquistada a duras penas nos anos 1980, chegamos a um lugar no tempo sem novos líderes, pessoas que pensem e ajam realmente numa direção segura e de forma consistente para, empaticamente, sanar os gravíssimos problemas que enfrentamos no doloroso cotidiano.
Desemprego, inflação, baixa renda, falta de moradia, de saneamento, de educação digna, de saúde idem, de meio ambiente equilibrado, de segurança institucional, financeira, social e pública rebaixam nossa estatura e estadia ao subsolo desta gigante casa. E a lista corre: desigualdade brutal e perpétua da distribuição da riqueza, preconceitos dos mais variados campos da relação intersocial, incompetência na gestão pública, corrupção humana, incontinência verbal de lideranças, aniquilação do oponente político, falta de visão de futuro, de pesquisa avançada, de integração internacional, da altivez inteligente, da empatia, do amor. Falta novidade no cenário político desta Casa Grande.
É para agora, sem tempo a perder, a urgente busca de uma nova identidade que os atuais grupos políticos nacionais não se preocuparam em buscar e não conseguiram entregar. E não vão. Tentaram fazer sucessores já tortos vindos de raízes mortas. Herdeiros de sobrenomes conhecidos não estão e nem darão conta das demandas atuais e futuras.
Há um perigoso vazio político, um vácuo que produz desalento e perpetuação de seculares e tristes problemas, além de um descasamento com a vanguarda que move verdadeiras nações como uso e distribuição de riquezas naturais ou sintetizáveis, jornadas de trabalho, obtenção de escala na utilização de combustíveis renováveis e limpos, educação de excelência, entre outros viveres.
Passadas duas décadas, precisamos entrar ontem no século 21.












