Afinal, qual o sentido da morte na vida?

O ser humano sabe o quanto é angustiante viver tentando explicar como o falecimento norteia sua ideia de finitude e, consequentemente, de sofrimento perante ele

É angustiante viver tentando explicar como o falecimento norteia sua ideia de finitude

É angustiante viver tentando explicar como o falecimento norteia sua ideia de finitude

Bruno Kelly/Reuters - 13.05.2020

O que mais me impressionou nos últimos dias foi perceber que, em meio a 150 mil mortes vinculadas ao apocalíptico vírus do momento, as pessoas que conhecemos também se vão desta vida por outras razões. Parece até o óbvio isso. Na real, é.

O discurso, já meio disseminado entre comunidades digitais e imprensa, de que os serviços de saúde público e particular parecem ter olhos somente para o ‘corona’ e, assim, vão se ‘esquecendo’ de que existem também para atender desde um machucado superficial na pele até doentes em estágio final de câncer, está se tornando comum nas pequenas rodas sociais, com maior ênfase nos círculos de conversa naturalmente formados durante os velórios.

Nesta semana que passou, por exemplo, dois destes rituais simultâneos me chamaram a atenção. Uma mulher de 48 anos e outra de 80 e poucos morreram no mesmo dia de causas que nada tinham a ver com a doença ‘da moda’. Um câncer em estado avançado e duas ou três paradas cardíacas levaram a vida de ambas e deixaram no lugar dela os incontornáveis sentimentos e/ou sofrimentos a quem ficou.

É claro que assim ficam também os parentes e amigos das vítimas fatais da covid, enlutados, doloridos pela saudade e inconformados de como a doença se instala e avança sobre o sistema pulmonar. E aqui não cabe comparar números desta enfermidade ou de qualquer outra causa mortis, assim como a quantidade ‘hecatômbica’ de pessoas assassinadas.

O óbito, seja qual for o motivo, causa inconformismo e dor pessoal ou coletiva. Uma dor originada pela ausência – eterna, daqui para a frente - de uma pessoa amada não é comparável à outra. Cada um sabe da sua, da dimensão e consequente devastação a partir de então. Neste instante, palavras de conforto ligadas a crenças espirituais e até mesmo a fé de que nada mais existe a partir da morte física entram no circuito para tentar explicar, dar sentido ao ocorrido, numa espiral de sensações que se sobrepõem umas às outras sem ordenamento, muito menos piedade.

Os sentidos que aparecem nessa difícil ocasião se materializam, por assim dizer, nas falas dos que creem, por exemplo, na salvação da alma, na reencarnação dela ou mesmo na sua inexistência sendo o corpo, no caso, o habitáculo de uma pessoa que teve sua vida identificada por algum tipo de registro (nome, número, som), viveu sua história e deixa de existir em sua integralidade tornando-se um amontoado de lembranças aos que ficam.

O interessante é perceber o quanto o ser humano se ocupa de seu fim como espécie. Desde o Egito antigo até hoje criamos, nós estes seres muitas vezes inconformados com o fim desta vida, maneiras múltiplas de lidar com o inescapável fim, ao menos biologicamente considerando. Chega a ser curioso lidar com os tratados, as hipóteses, os desdéns, as crenças, os ajustes e toda uma parafernália de conteúdo criado - e isso parece ser consenso - para amenizar a dor, física mesmo, que sentimos quando uma pessoa morre.

Já toquei nesse assunto e não fui o primeiro a escrever sobre isso, mas se tenho uma certeza sobre nós é que a essencialidade humana não acolhe o sofrimento. Traduzindo, além da suposta e controversa busca pela felicidade, o que menos o indivíduo deseja em sua frágil existência é não sofrer, preferencialmente por nada, o que nos leva à fantasia de uma vida de realizações plenas, de paz, harmonia, sem doenças, ensolarada, sem privações de quaisquer espécies ou frustrações que desencantem do eldorado. Eterna, se possível.

Ninguém quer sofrer, principalmente a ausência de alguém. Fácil assim.

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