Aos trancos e barrancos, se lá chegarmos vivos

Desconforto e insegurança estão na base dos buracos nas ruas brasileiras e parece que ninguém grita (ainda) por uma solução

É inaceitável que as ruas e demais vias onde vivemos serem essa coisa bárbara que são

É inaceitável que as ruas e demais vias onde vivemos serem essa coisa bárbara que são

Werther Santana/Estadão Conteúdo

Descobri há poucos dias um barulho vindo da parte de baixo do meu carro, no lado do motorista, que era, como todo ruído não solicitado, irritante. E o era porque além da sua natureza desconhecida e ‘rítmica’ como um grilo enfartando (a mim também), o automóvel não estava, assim, tão usado para apresentar alguma fadiga, algum sinal de que algo estivesse solto, uma arruela que fosse.

Eu podia afirmar, sem dúvida, que tal som só poderia ter sido detectado pelos meus ouvidos a partir de duas situações comumente encontradas nas vias terrestres deste país. Uma delas tornou-se, inclusive, quase rara nas grandes metrópoles em que o calor atordoa qualquer um e a violência campeia a cada esquina.

O vidro abaixado é um atentado contra os bons costumes e segurança sem precisar ser publicamente pornográfico ou desapegado da vida. Trata-se de uma atitude quase morta nas ruas uma vez que, mesmo com o sol assando o capô, o tal ar-condicionado funciona bem e dispensa a abertura das janelas para o refresco da alma. Tudo bem que você pode ir à cova por uma tosse seca, coriza ou mesmo tornar-se um novo abrigo para as bactérias alojadas nos dutos se não houver manutenção preventiva do sistema. Eu costumo ignorar esses avisos do destino e sentir o vento na cara, vindo em ondas quentes que distorcem a paisagem ou até mesmo em gélidas sopradas. Isso provou-se benéfico pois ajudou a descobrir que havia algo indo a óbito no meu possante.

Outra forma de se aventurar, essa quase que inescapável onde o poder público não cumpre as regras e trata os cidadãos e seus transportes individuais e públicos como gado em seus carros de boi, é simplesmente estar a bordo de um desses e sentir os trancos inesgotáveis a cada depressão, valeta, cratera do pavimento. Já tratei por cima deste tema aqui, mas agora desço além porque o buraco é mais embaixo e largo. E graças a estes aliados da indigência cidadã bem típica de países em que autoridades são uma fatia social que não se sente cobrada muito menos pertencente ao todo, também fui por eles auxiliado na constatação do cri cri vindo de baixo do meu transportador privado.

Chafurdando um pouco mais, é inaceitável, repito, inaceitável que as ruas e demais vias que compõem o balaio de acessos aos lugares onde vivemos, trabalhamos e saímos sejam essa desgraça que é.

Pensemos um pouco. Todos os países do mundo têm uma infraestrutura viária e carros que nela trafegam, sejam ilhas pequenas ou continentais com variados pavimentos e meios financeiros para sua manutenção. O Brasil não está listado em nenhuma organização multilateral como um dos mais pobres. Afora a corrupção, a falta de cobrança e de punição, a ausência de empatia ou de comprometimento, a desfaçatez, a negligência, a inexistência de planejamento, a incompetência na gestão do que é público, é difícil, tecnicamente falando, construir e manter em bom estado de conservação essa estrutura que requer materiais e engenharia já consagrados como cimento, areia, pedra, piche, asfalto, guias, maquinário, ferramentas, trabalhadores etc.?

Fazer direito uma sarjeta, instalar corretamente guias, pavimentar com asfalto de boa qualidade uma rua para que fique lisa e segura ao tráfego rodoviário e de pessoas, bicicletas e afins, nivelar tampas de galerias de serviços como água, esgoto, luz, gás e telefonia, fazer valetas e lombadas dentro de normas, rampas de acesso a cadeirantes também normatizadas e decentes e, claro, adequadamente sinalizar tudo, pergunto, é algo de outro mundo?

A rua, genericamente falando, é a primeira coisa que enxergamos ao pisar fora de casa e provavelmente a última antes de bater à porta de volta. Seja qual for, onde estiver e como se apresenta, está indissociavelmente em nosso caminho, e assim sendo deveria proporcionar conforto e segurança ao percorrê-la, a pé ou sobre rodas. Algum dia deveremos nos cansar das coisas como estão, nos corredores de ônibus, nas faixas de rolamentos, nas ciclovias/ciclofaixas. Que chegue rápido esse dia, assim como é rápida a deterioração dela.

A propósito, o grilo era um grampo de aço solto no sistema de frenagem da roda dianteira que simplesmente segurava a pastilha de freio para que essa não vibrasse ou colocasse a peça em risco. Eu tenho certeza de que não fui o autor da façanha e ele não se soltou sozinho. Ironia do destino, o mesmo buraco que criou o grilo me ajudou a ‘matá-lo’.

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