Arthur do Val e o lugar de fala no escanteio da política
Deputado perdeu a chance de ficar calado diante do grupo ‘fogo amigo’, que sempre vaza informação valiosa sobre quem somos aos inimigos
Eduardo Olimpio|Do R7

Mamãe falei.
Sim, Arthur do Val, cidadão que tem milhões de seguidores nas redes sociais, que se elegeu deputado estadual no estado de São Paulo em 2018 com a segunda maior votação, que tem 35 anos e uma empresa familiar de comércio de sucata, que se especializou em ‘entrevistar’ políticos e militantes de variadas causas para deles tirar o que lhe interessa como informação e comportamento a serem trabalhados editorialmente como notícia, falou.
E disse muito mais do que compõe o áudio vazado há poucos dias, de aproximadamente 3 minutos e meio, enviado direto da Eslováquia na zona fronteiriça com a Ucrânia para, segundo ele mesmo afirma, um grupo privado de amigos. Diante do fato, após a publicidade de seu vernáculo que misturou Marquês de Sade com a linguagem ‘da quebrada’, assumiu-se como um moleque, oficializando-se no cargo. Nem os personagens de Nelson Rodrigues seriam mais reais do que ele após falas miseravelmente humanas e machistas.
Para quem conhece razoavelmente bem a vida parlamentar, seja na capital paulista ou numa cidadezinha minúscula em qualquer outra zona eleitoral, o lugar de fala de um ator político ungido pelo voto popular é um privilégio à exaustão. Se antigamente as rádios, os jornais, as emissoras de televisão, as revistas, os cordéis e as charges davam conta de fazer chegar à população os atos (falhos ou não) de um prefeito, governador, presidente da república, vereador, senador, deputado estadual e deputado federal, atualmente os meios de disseminação, massificados por aparelhos eletrônicos portáteis como um telefone celular, enchem a cada minuto nossas pobres e despedaçadas vidas de fragmentos das vidas dos não tão pobres assim, nossos representantes na divisão dos poderes constitucionais. E olha que nem tocamos nos agentes públicos não eleitos como juízes, promotores, desembargadores, procuradores, segundos e terceiros escalões em geral.
E foi assim que acompanhamos, por centenas de anos, as gafes de imperadores, monarcas e demais engomados em suas misérias intelectuais e administrativas, que se perpetuaram de forma mais contundente do que suas conquistas territoriais e o respeito vindo de súditos, servos e afins. Putin, provavelmente o atual imperador contemporâneo mais discutido nas latitudes e longitudes planetárias, será um destes caricatos pegos pela História, no caso de forma proposital, cavalgando com dorso nu, fazendo abdominais, flexões de braço, pilotando jet sky e motocicletas por aí. Assim como outros mestres de uma escola política populista, bem planificada e enquadrada, que sempre dá frutos nas estações do ano acima e abaixo do Equador, e à direita e à esquerda de Greenwich.
Se há mais a que dizer do que já foi verbalizado por agentes públicos da situação ou da oposição, Arthur do Val conseguiu façanhas como esta, a de unir os lados inalienáveis da política, ser de alguma forma desmascarado publicamente a quem ainda não o tinha como ele é e, de quebra, perder a namorada.












