As delícias e cansaços das maratonas

Horas a fio ligados na tela, embalados pelas tramas de séries, suscitam o debate entre alienação ou simples divertimento cerebral

Você já maratonou alguma série?

Você já maratonou alguma série?

Andrea Piacquadio/Pexels

A prova atlética da maratona consiste em refazer correndo, pelas pistas asfaltadas de uma cidade qualquer do globo, o percurso de pouco mais de 42 quilômetros. A história de sua criação e inspiração é facilmente encontrada na rede mundial de computadores (mais conhecida como internet) e, curiosa que é, pode até ser um gatilho para sabermos mais das peripécias humanas que fizeram a História.

O verbo ‘maratonar’, derivado deste substantivo, vem ultimamente sendo largamente usado para identificar um comportamento muito peculiar percebido em milhões de pessoas ao redor do mundo. Trata-se, num empréstimo torto da semântica, em acompanhar uma longa série (como se fossem ‘quilômetros’) televisiva, exibida e produzida por emissoras, produtoras ou plataformas de streamings, até seu fim. Esse ‘ir junto’ pode se dar em capítulos que emendam situações nas quais roteiro e edição criam as ‘deixas’ para que o espectador se sinta ‘aprisionado’ na trama a ponto de, seduzido e sedento em seus sentidos, buscar sua saciedade no próximo. Também se manifesta em episódios ‘fechados’, com começo, meio e fim em si mesmos, sem ‘ganchos’ muito bem definidos, mas com alguma qualidade no conteúdo para fisgar e fazer você e eu clicarmos em milissegundos o ‘próximo episódio’.

É quase uma mágica, um mundo em que não há mais nada em volta a nos sacar do assento em que nos encontramos - exceto a bexiga e/ou o intestino. Parece uma nuvem a rodear nossos cérebros que paira sobre essa massa sem deixá-la agir à revelia dos sentidos expostos ao vídeo, ao alto-falante do aparelho e, daqui a pouco, quando efetivarem a tecnologia, ao cheiro que impregnará na realidade o ‘ar’ da cena. Tradução: zumbização.

O pior é que é gostoso se entregar a esse momento sem essa vigília em camadas. Parece que a existência lá fora não ‘existe’ naquele tempo em que estamos ‘voluntariamente’ em clausura. E, se existe, o relógio nos indica sensorialmente que os ponteiros pararam. É quase uma metavivência do que, possivelmente, nos faz moradores deste planeta que se move balizado pelo Meridiano de Greenwich. A sensação é de que o ‘senhor das horas’ descamba de seu poderio sobre nossa existência e nós passamos, falsamente, a achar que somos, durante a maratona, donos do destino que, na verdade, nos comanda entre cliques do...que nome ilustrativo para o momento... controle remoto.

Quando falo isso, não quero dizer, necessariamente, que agimos mal ao nos entregar nessas aventuras abduzidos de qualquer realidade, boa ou ruim, que nos embala. Longe sentenciar a morte do ‘eu’ que nos rege a cada instante de vida. Apenas, e tão somente, divagar sobre a sensação de flutuabilidade quando a tela acende e cenas ensaiadas, assim como trilhas sonoras bem encaixadas num roteiro fictício bem amarrado, nos tomam de nós.

Só que, depois de algum longo tempo, de repente a pálpebra pesa, um ‘apagamento’ de pouquíssimos segundos acontece, alguma campainha toca e uma mãe nos chama pelo nome com um sobrenome ao menos para comer ou toma banho. E lá se vão, rio abaixo, algum colorido, um restinho de bom zumbido no pavilhão acústico, a lágrima tardia, alguns pelos arrepiados e uma dorzinha ou formigamento nas pernas. Ao final, é gostoso todo o processo e instigante se pôr a reproduzi-lo do ligar o aparelho até o clique no ‘off’.

Apesar dos pesares, quem não seguiu horas a fio, da forma mais humana e básica em que se dá esse processo de ‘alienação’ barata, realities shows, séries originais etc? E quem, antes, durante ou depois, nunca entrou na rede mundial de computadores para opinar ou saber mais dos bastidores nos fóruns de discussão?

Sem percorrer 42 anos, muito menos 42 quilômetros, de ‘Twin Peaks’ ao recém-cultuado ‘Round 6’, não adianta lutar contra as maratonas que chegaram e fincaram suas raízes no nosso cotidiano. E a constatação é que não cansamos em percorrer quaisquer 42 horas que nos sugerem os amigos.

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