As múltiplas despedidas da vida

Entender, aceitar, vivenciar e significar a morte dentro da pandemia carece de recursos ímpares como despedir-se sem ritual

O que seria justo é que cada um pudesse ter o direito legítimo de se despedir dos seus mortos da forma que acreditar ser a mais confortável e compatível com suas crenças e meios

O que seria justo é que cada um pudesse ter o direito legítimo de se despedir dos seus mortos da forma que acreditar ser a mais confortável e compatível com suas crenças e meios

Susan Cipriano/Pixabay

Estava me preparando para escrever sobre a guerra que se tornou a questão da vacina contra a Covid-19 no Brasil e todas suas nuances políticas, científicas, sociológicas, republicanas e temporais. Mas desisti, porque pensei em poupar um tiquinho o singular leitor em meio à enxurrada que o lava de notícias falsas, desmentidos, sandices e, vez ou outra, alguma informação que valha este substantivo.

Essa pandemia, ainda presente e sem data para se desgrudar da nossa carne interior e da geleia psíquica-cerebral, levou muitas vidas e continua matando, democraticamente, pessoas dos mais variados naipes mundiais. São nomes e sobrenomes de parentes, colegas e amigos que deixam um buraco na vida social e afetiva de quem transitava na sua órbita. E a dor dos enlutados merece algum descanso neste ping-pong macabro que dói a cada raquetada de lado a lado da mesa.

E aí reside outra maldade, digamos, no final do processo. Ao entregar o corpo ao caixão, independentemente deste vir a ocupar um minifúndio, ser engavetado ou incinerado, quem se despede dele quase nunca o pode fazer de forma cerimonialmente tradicional. Aos que dispensam quaisquer rituais, tudo bem, também devem ser respeitados. Agora, aos que desejam dizer adeus de perto, de estender a presença física em velórios ou similares e não podem por conta do bicho mau do momento, estes merecem nosso olhar mais atento.

Mesmo aos que perderam pessoas de outras formas, trágicas igualmente mas por acidente, assassinato ou até dormindo, as despedidas indesejadas são naturalmente doloridas e carregadas de emoção. Também fica uma questão no ar que é se o vivo consegue, nestes termos exemplificados, fechar o ciclo, entender, aceitar, perdoar o algoz humano ou do destino. Costumam acompanhar o pacote as frustrações, os arrependimentos e as sensações de ter feito pouco ou mesmo não ter feito o que se devia em vida com relação a quem se foi. Isso tudo é muito humano.

A tal emoção permeia a relação dos vivos com quem se foi de múltiplas formas, ou ao menos está na engrenagem que alimenta a memória racional e afetiva com relação a quem morreu. O ser humano é mais do que testemunha, é ator de si. Sabe há milênios das lágrimas que caem sobre sua pele ou pingam direto no solo quando reencontram alguém querido depois de uma jornada afastado; conhece bem o choro de quem fica e vê o outro se esvaindo pelo horizonte sem que seja possível ir junto na partida alheia, eterna ou passageira. É poço, assim, de um inesgotável mecanismo de pulsões acionadas a cada ida e vinda. Sempre foi assim, e sempre assim será.

O que seria justo, para além da reflexão, é que cada um pudesse ter o direito legítimo de se despedir dos seus mortos da forma que acreditar ser a mais confortável e compatível com suas crenças e meios. Por questões sanitárias, ok em poupar o bem-estar coletivo, mas todos deveriam realizar esse momento derradeiro de acordo com suas próprias e elementares maneiras de ‘ler’ a morte.

Isso tudo me veio em meio às minhas emoções quando, assistindo a um programa de tv gravado no saguão de um aeroporto, meu trem de pouso baixou ao ver as lágrimas de familiares que ou esperavam seus queridos ou deixavam seus amores na plataforma de embarque e desembarque.

Abraços, últimos dedos a tocarem seus gêmeos de outra mão, olhos avermelhados e lambuzados, suspiros mil, mãos inquietas, dentes de sorriso ou de mordidas entre lábios. Tudo tão humano, tão normal, ancestral e consonante com o DNA ainda em voga, que me fez lembrar dos que não podem estar perto de seus ‘despedidos’ e desdenhar, momentaneamente, os RNAs, os vírus inativados dentro de ampolas da - tão burra e tão humana - discórdia.

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