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Eduardo Olimpio

Até quando suportaremos outros ‘meninos de Belford Roxo’?

Mais que passou da hora de enfrentar o despudor e a dor de ver crianças mortas por ‘traquinagens’ imperdoáveis aos olhos do crime organizado

Eduardo Olimpio|Do R7

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Os três meninos de Belford Roxo que foram mortos por traficantes
Os três meninos de Belford Roxo que foram mortos por traficantes

Na semana passada, a sociedade brasileira pôde acompanhar uma espécie de volta à Idade Média, à Antiguidade — se o leitor assim concordar ao final do texto — ou a qualquer outro estágio maioral tresloucado pelo qual a humanidade passou.

Não, desta vez não foram atos políticos ou vozes das cavernas que nos deram essa impressão. Infelizmente, esses atos e vozes juntados em arroubos retrógrados acontecem cotidianamente e são bem acompanhados pela imprensa crítica que, mesmo combatida mas nunca combalida, ainda prospera em meio a uma enxurrada de informações equivocadas, criadas em escala industrial, e ataques irracionais vindos de novas cepas familiares da vida pública nacional.


Equivocadamente, não seria um retorno propriamente dito. Diria, sem muito receio do erro quando olhamos o tempo que vivemos ontem e hoje, que se trata de um momento sempre presente na torta linha da história, contada por vezes entre capas de livros da matéria ou, numa forma majoritariamente mais justa com os fatos, fora desses limites e conteúdos encapados.

Refiro-me à brutalidade, ao que já deveria ter sido extirpado da sociedade líquida na qual nos tornamos não pela efemeridade dos feitos, mas pelo sangue que não para de jorrar de corpos de todas as idades, cores, sexos, credos e tamanhos.


Como tantos outros meninos e meninas deste imenso, avesso e desigual Brasil, três garotos do chamado subúrbio carioca que eram, até há poucos dias, considerados desaparecidos, foram declarados pela Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro como mortos pelo crime organizado, mais precisamente por traficantes da comunidade do Castelar, em Belford Roxo. No "tribunal do crime", suas punições foram decididas pelo ato escabroso que teriam cometido: um roubo de uma gaiola de passarinho(s) que pertenceria(m) ao comando do tráfico de drogas que controla o local.

Essa "barbárie" em forma de traquinagem, de pura molecagem que um dia muitos de nós cometemos em meio a graus variados de consciência e de cálculo do dolo e do prejuízo, bastou para que, segundo as investigações policiais, uma sessão de tortura se instalasse em algum canto, o suficiente para causar a morte de um dos meninos. "Surpresos", supostamente, por acharem que o mal a ser combatido com o mal não chegasse às vias de fato, o(s) assassino(s) "desesperaram-se" ao também perceber que dois dos três amigos, os até então sobreviventes, pudessem dar com a língua nos dentes por aí. Já pensou se saíssem e relatassem o que um passarinho lhes havia contado e, pior, testemunhado?


Lucas Matheus, 9; Alexandre da Silva, 11; e Fernando Henrique, 12 anos de idade, não foram os primeiros a encabeçar a lista fúnebre da sociedade desumana em que nos metemos e na qual formamos alicerces podres, em cima dos quais erguemos palafitas, trapiches, farrapos, como Bi Ribeiro, João Barone e Herbert Vianna vislumbraram em 1986 em Alagados.

Entre farrapos e barracos, acende na memória a cena em Cidade de Deus, obra-prima do cinema brasileiro de 2002, em que o personagem Zé Pequeno e seu bando encurralam dois meninos que "aprontaram" na favela e, para "dar uma lição"’ aos fedelhos, ele atira nos pés dos dois e dá a ordem para um novato matar um deles. Imperdível e infelizmente atualíssimo, esse produto cultural é fruto de um livro seminal de Paulo Lins escrito cinco anos antes, e soa por demais documental quando duas décadas depois "inspira" a bestialidade e selvageria empregadas contra os três meninos de Belford Roxo, impregnadas até as entranhas da nossa medieval sociedade.

Meus pensamentos a todos os Lucas, Alexandres e Fernandos, e minha tentativa, ainda que falha, de empatia com relação aos pais, mães, irmãos, demais parentes e amigos dos que não puderam florescer e desabrochar por causa de uma violação fatal ao seu direito humano de continuar nesta vida, a única que com certeza reconhecemos todos como uma incontestável realidade.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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