Atenção aos cliques que levam ao ‘match point’ ou ‘game over’
O barato que dá sentir o gosto do novo após uma negociação virtual pode sair caro se a cabeça perder o controle antes do aumento da pulsação
Eduardo Olimpio|Do R7

Era para ser mais um encontro. Entre fotos e posteriores conversas por aparelho celular, mesmo daqui, sem saber direito se foram diálogos falados ou escritos, fato é que houve, de comum acordo, uma necessidade de se conhecerem pessoalmente após algum nível de informações pra lá e pra cá trocadas.
Num lugar na via pública marcaram, digamos, esse contato mais físico. E o que era para ser um frisson, esperado por ambos, acabou com um tiro no pescoço, um homem ensanguentado, um carro em fuga e outro veículo em busca de socorro para, algum tempo depois, este homem, já sem vida, ganhar o noticiário como vítima de latrocínio, ao que tudo indica até então.
O ocorrido descrito aconteceu há 8 dias na capital paulista. Não foi o primeiro, tampouco será o derradeiro. Baseado no risco que se assume ao se apresentar pessoalmente a uma pessoa sem conhecê-la de fato (apenas pelo app de encontro mais conhecido no mercado, no caso, ou qualquer outro meio que utilize apenas e tão somente, num primeiro instante, as ondas de rádio), presume-se que os envolvidos considerem interessantes as várias possibilidades que se abrem nesse modelo de transação.
É evidente que a tecnologia digital possibilita que aspectos do comportamento e das personalidades sejam testados em fases. Homens e mulheres, assim identificados, transitam nessas plataformas e aplicativos em busca de objetivos em camadas que, aqui, não valem ser julgados porque não somos ninguém para tal tarefa, uma vez que isenção é um dos nossos pontos fracos. O importante é entender os passos dados.
Juntar as facilidades operacionais ao decidirmos sair por aí para conhecer gente com as benesses que esse ferramental representa no cotidiano, de um lado, e do outro o perigo, simultâneo, que é se expor a esse arsenal de sinais chamativos sem precedentes, cria um jogo de novidades excitável que pode desembocar numa união de oportunidades e desejos, tanto para uma finalidade boa quanto criminosa. Isso não é tudo que se deve considerar, mas ajuda a revelar o grau de dependência desse tipo de técnica para, por exemplo, suprir carências afetivas e até materiais, quando se marca um encontro supostamente de negócios para, tardiamente, descobrir que era uma arapuca.
Não à toa, autoridades policiais e formadores de opinião em todas as plataformas de comunicação hoje existentes dizem, a quem interessa ouvir, sobre os cuidados diante de certas evidências clássicas nesse tipo de situação e abordagem. Fora as dicas extremistas, por demasiado conservadoras e que não ajudam muito a construção de uma malha social por estarem amarradas a preconceitos, exageros e mutilações da verdade, existe um protocolo, assim chamemos, que pode atenuar, evitar e até dissuadir pessoas mal-intencionadas de se encontrarem com suas possíveis e já cativadas vítimas, desejosas de atenção, carinho ou de um par de discos de freios mais barato.
Vai se encontrar com alguém com quem você nunca esteve antes em função de pegar algo encomendado, comprar, vender ou namorar? Marque esse lugar físico para o frisson do olhar, do perfume, dos cabelos ou do sentir nas mãos a forma do plástico-bolha que protege a maçaneta encomendada do fusca desmontado na garagem da sua mãe em frente a uma Delegacia de Polícia, a um batalhão da Polícia Militar ou dos Bombeiros; numa estilingada psicológica, vale até porta do Instituto Médico Legal ou na nada infalível mesa de praça de alimentação.
Aquele homem, e outros tantos seres humanos, provavelmente ainda estariam entre nós se as opções de locais de encontro tivessem sido mais assertivas.












