Continuar a vida para mudar a vida

Uma avalanche de situações, planejadas ou não, interfere no caminhar e nos leva a novos planos do viver

A atriz Nastassja Kinski em cena do filme Paris, Texas

A atriz Nastassja Kinski em cena do filme Paris, Texas

Divulgação

É chover no molhado dizer que a vida corre e a gente muda de quando em quando alguns conceitos, comportamentos e referenciais. Isso acontece à revelia, não temos o controle total de nossas novas maneiras de olhar para as coisas que nos rodeiam, estejam elas onde estiverem, no mundo real ou não, passando ou deixando de fazer algum sentido para nós, individualmente.

O tempo, ou melhor, o intervalo entre ocorrências que alteram os prumos na vida, é mais uma das variáveis incontroláveis que nos impactam sem que possamos manipular como, humanos que somos, desejaríamos. Ou seja, pouco nos resta manejar no que se refere aos agentes externos que incidem em nossas existências como incidentes, acidentes, decisões de governos, preço do pãozinho ou testemunhar, seja lá o que for. O saber se conformar com os ‘desvios’ em nosso caminhar, quando passíveis de aceitação, provavelmente é o sinal do bom senso tomando as rédeas para não cairmos em tentações nem sempre lícitas ou loucuras vãs.

No entanto, quando se atravessa principalmente o período entre a adolescência e o seu ‘logo após’, um turbilhão de pensamentos e questionamentos forma-se naturalmente em nossa cabeça. E é nesse novo e único intermédio do crescimento que ficamos um pouco mais suscetíveis a experiências sensoriais com as mais variadas fontes, e perguntas como o que somos, de onde viemos, para onde vamos, o que aqui fazemos, são como pipocas quentíssimas que voam para fora da panela, incontroláveis.

A arte, a literatura e a espiritualidade, dentre outros campos magnéticos que nos envolvem para o bem ou para o mal, costumam nos ajudar nas primeiras marcas do nosso repertório de informações que, em franco processo de aquisição, se traduzirão rapidamente em nós como inéditos conhecimentos que nos levarão a um novo patamar, e assim por diante enquanto aqui vivermos. Lugares aos quais viajamos para conhecer ou que acabamos por pisar sem muito planejamento se somam à lista dos tais campos.

Lembro, por exemplo, da leitura de vários livros que me impactaram na juventude esticada até os vinte e poucos anos. Na lista, aqui bastante recortada, constam os livros ‘Coiote’, de Roberto Freire; ‘Não Verás País Nenhum’, do Ignácio de Loyola Brandão; ‘Demian’, de Hermann Hesse e até ‘Contos’, de Machado de Assis. No cinema a coisa foi mais forte até, creio eu, por conta do fascínio da tela grande e iluminada, com narrativas interpretadas e cenários/figurinos alucinógenos. Mais picotada ainda cito, de memória fluída e apertadamente, quatro títulos para igualar aos impressos, ‘Encontro Com Homens Notáveis’, de Peter Brook; ‘Paris, Texas’ (e tantos outros) de Wim Wenders; ‘Sonhos’, de Akira Kurosawa e ‘Limite’, de Mario Peixoto.

Lugares? Lago Titicaca, entre Bolívia e Peru; Sossusvlei, na Namíbia; Chapada Diamantina, na Bahia e El Tatio, no Chile.

Em tempos tão sofríveis como o presente, fazer a devida reflexão de como nossas vidas são pautadas pelas influências recebidas via sentidos físicos e não físicos, pode nos ajudar a dar um mínimo de parâmetro e conforto a fim de sabermos de onde saímos, como chegamos até aqui e quanto ainda receberemos de sinais, de excitações, para continuar a mudar, mesmos em sair da espinha dorsal que nos carregou dos primeiros passos até aqui.

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