E a cabeça, irmão, como fica?

Tempos de isolamento social revelam aspectos psicológicos dessa experiência humana 

A civilização pode acordar a partir da pandemia. Quanto ao desequilíbrio, isto é regra e não efeito

A civilização pode acordar a partir da pandemia. Quanto ao desequilíbrio, isto é regra e não efeito

Manuel Silvestri/ Reuters

Confinamento. Restrição. Clausura. Um dos conceitos mais destrinchados, aceitos ou até questionados sobre o ser humano é sua condição de animal social. De Aristóteles aos pensadores contemporâneos, sabe-se minimamente que nós sobrevivemos e deslanchamos na vida por meio de uma espécie de cooperação mútua entre nossos semelhantes racionais, bípedes e, numa leitura pessoal mais crítica, limitados.

O fato é que o Homem vem trilhando sua história se relacionando com outro Homem, mas também fugindo dele, da fome, da selvageria do ‘mundo animal’, de ‘demias’ calamitosas, de catástrofes ambientais. Desta lista, uma causa nos tem trancafiado no lar e despertado reflexões de como estamos e ficaremos com a nossa cabeça diante de tantas variáveis para tratar, como nos manter longe dos queridos da nossa espécie ou não nos esbarrar noutros sapiens suados em shoppings ou praias.

Já ouvimos relatos sobre relações de casais que terminaram ou melhoraram muito com a crise da pandemia, pessoas que intensificaram o uso de drogas lícitas ou não e descobriram filmes, livros e atividades manuais e esportivas dentro de casa, entre outras situações.

Diante de tudo isso e além, há questões incontornáveis a serem feitas como o que somos e fazemos agora para não enlouquecermos enquanto estamos privados de ir e vir, por exemplo, ou quando nos percebemos o tempo todo com os parceiros da vida.

Não sou psicólogo, mas conversando com uma sobre que cuidados, prevenções ou mesmo iniciativas as pessoas em geral devem ter para entenderem ou aceitarem a situação adversa (e coletiva) de restrição de ir e vir, a resposta foi uma luz acesa na escuridão do trato da coisa toda. Para ela, a situação que vivemos hoje é peculiar porque entender o que ocorre atualmente está desconectado de aceitar. Segundo a especialista, estamos precisando aceitar antes de entender por estarmos todos no escuro — o estado incluso — e é justamente por isso que resistimos tanto ao confinamento, pois estamos acostumados a entender para depois aceitar, fato que não é possível no momento.  

Questionada se o medo da morte e/ou do sofrimento pela perda de alguém diante da pandemia se intensificou se compararmos com o período pré covid-19, a terapeuta disse que sim, o medo se intensificou, mas este sentimento segue mobilizando as defesas de sempre: negação da verdade, construção de realidades subjetivas e explicações ilusórias de como a vida funciona por uma dificuldade profunda em negar o escuro, aquilo que não conhecemos, a vida em si. 

E há algo a ser feito pelas pessoas individualmente para ‘passar’ pelo período sem sofrerem com ‘afetações’ que possam vir a desequilibrar a ‘sensatez’ dos tempos normais, pergunto? Para ela, seguimos equivocados, como antes, em relação a nós mesmos, ao poder que temos sobre as coisas e, principalmente sobre os fatos. Vivemos a realidade que construímos por não sermos capazes de encará-la como ela é.

Argumentou ainda que agora temos a oportunidade de enxergar a vida de maneira humilde, como aqueles que precisam aprender em vez de mandar, pois a vida está mostrando quem determina o que.  A civilização pode acordar a partir dessa experiência. Quanto ao desequilíbrio, isto é regra e não o efeito da pandemia. Mas pode parecer maior, sim, por causa da reação às limitações e desafios que não escolhemos ter.