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Eduardo Olimpio

É lindo o céu escuro que nos falta a cada noite

Uma pena que nós, brasileiros, não possamos gozar do prazer que é sentir o clima da noite país afora por conta de entraves como a violência

Eduardo Olimpio|Do R7

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Brasileiros têm receio de andar nas ruas à noite, segundo pesquisa
Brasileiros têm receio de andar nas ruas à noite, segundo pesquisa

Ando aos tropeços entre uma certa nostalgia e a atualidade quando no campo dos prazeres. De um lado, tudo aquilo que me consome - no melhor dos sentidos – como a energia, o tempo, as finanças e a saúde, ao analisar o que ando fazendo da minha vida nos últimos anos. Da outra ponta, o que me consumia no passado dentro destes mesmos marcos regulatórios. No balanço dos tempos, a oscilação natural do eterno pêndulo entre as partes.

Ainda sem uma companheira e uma prole que descendesse dos meus gametas, saía à noite a perambular por aí quando menino. Aprontava, mas dentro de parâmetros considerados até hoje legais. Passados uns anos, a mesma escuridão continuou a seduzir, mas por motivos muito diferentes dos até então. Botequins, cinemas, teatros, exposições artísticas, vernissages, lançamentos de livros, palestras existenciais, cursos livres, casa ou calçada de amigos, rolês na cidade a esmo, museus, festivais de qualquer coisa, saraus, namoricos. Tudo e mais um pouco pincelavam a minha impressão e expressão depois do pôr do sol. Acompanhado, agora pela família, acabei diminuindo, mais do que eu gostaria a paleta de cores, muito por minha e exclusiva culpa.


Agora, fato é que a noite mantém, pra mim, a melhor das atmosferas para atira-se nas mais variadas atividades que qualquer canto do planeta-cidade proporcione. Há algo além das estrelas, luzes de neon, de led, das sombras projetadas que sempre me seduziu a sair de casa e experimentar o escuro do ar e a luz a atravessá-lo, compondo uma experiência quase sempre confortável e saudável.

Por isso doeu, como uma queimadura de sol do meio-dia sem protetor, saber da pesquisa do Datafolha feita em março deste ano que mediu a insegurança que os brasileiros manifestaram ter ao sair de noite. Mais de 50% dos entrevistados disseram se sentir inseguros depois do crepúsculo.


Interessante, para não dizer desolador em um país com a natureza e clima que o Brasil apresenta, que as mulheres sentem mais medo de ir às ruas neste período do dia noite, nas cidades onde moram. Autoexplicável claro, diante da mortandade e violências sexual e moral à que estão expostas independente do horário dentro das 24 horas. Outra linha da mesma pesquisa apurou que cerca de 40% dos negros e sentem assim, inseguros em estar nas ruas; para efeito de comparação, pouco mais de 30% das pessoas que se declararam brancas assim se manifestaram também.

Quando levamos em consideração o interior brasileiro, a sensação de segurança das pessoas é maior; ‘apenas’ 28% se declaram medrosos nessa região, diante dos 48% nos grandes centros urbanos.


Para andarmos além das características de pele, condição social ou região aferida, o que podemos ter de claro a ser refletido diante dessa escuridão toda que paira sobre a sociedade é que estamos sendo, de forma variada, ceifados dessa convivência social mútua, e também alijados do importante exercício que é andar pela cidade onde vivemos, conhecê-la, cultivá-la, admirá-la, cuidar, reverenciar, ter prazer em suas entranhas de ruas, calçadas e praças, de cafés, bares, restaurantes, museus, cinemas de rua, feiras de artesanato, uma roda de música inesperada no caminho.

Triste, para um Brasil como poderia ser, saber que o estado perdeu, além de territórios para o crime organizado, seu status de avalizador do bem-estar social quando olhamos para um céu enegrecido e ávido por pairar sobre nossas cabeças. Que inveja dos outros lugares do mundo onde isso é pleno e incentivado que aconteça, para o bem do lado de dentro de nossas mesmas cabeças.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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