“Enquanto os homens exercem seus podres poderes”
Mimimi empresarial lido como breque ao progresso e satisfação a grupo ‘fora da ordem mundial’ da vacinação pautam ‘Semana do Presidente’
Eduardo Olimpio|Do R7

Para o exercício do cargo público requer-se, de quem ocupa as cadeiras legislativa ou executiva, uma série de comportamentos codificados que assim existem pela simples razão de se esperar um mínimo de decência daqueles(as) que nelas se sentam. Do ponto de vista ético, no entanto, nem sempre as coisas caminham conforme o que a cartilha maior lacra.
Ao assumir um posto de trabalho dessa esfera, a pessoa deve saber que não deixará de ser quem é na essência, mas a ela caberá uma calibração de atos e pensamentos em nome do bem comum como previsibilidade em relação à economia, senso de planejamento, uso e abuso de meios democráticos para uma saudável, necessária e transparente prática política, alguma coerência construtiva em se tratando de opinião, um nível de educação pessoal e escolar com bases mínimas, impessoalidade no trato da coisa pública, responsabilidade com a arrecadação de impostos e investimentos no bem-estar social, evitar e punir práticas corruptas/ilícitas e demonstrar alguma tal inteligência emocional, seja lá qual o significado que o leitor queira dar a essa expressão.
Não me ocorre que o atual presidente do Brasil assim proceda, atue, pense ou seja. Difícil encaixá-lo nas linhas traçadas e tantas outras que aqui nem tratarei. Razões não faltam; aliás, a frequência com que a sociedade (imprensa, setores econômicos etc.) lida com as iniciativas e falas errantes do atual chefe de estado é diária. A cada bloco de horas um pensamento ou uma atitude dele ganha qualquer ‘trending topic’.
Por que isso? Não tenho a (única) resposta. Tenho, sim, infinitas perguntas inquietantes a me sondarem a cabeça. O que posso assegurar é o fato e suas consequências.
Um exemplo de sua linha de procedimento que muitos até veem com similaridade a outros mandatários maniqueístas da primeira metade do século 20 é o pedido para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária revelasse publicamente os nomes de seus funcionários que liberaram a vacinação contra a covid-19 para crianças acima de 5 anos.
Para além da extrapolação dos princípios que regem o cargo, do desvio de finalidade que se caracteriza quando um agente público pratica um ato (extra ou oficialmente) em benefício próprio ou alheio, sem que seja do interesse coletivo, Bolsonaro põe em desnecessária evidência funcionários públicos de uma agência reguladora e, no caso, os expõe a tresloucados ‘antivax’ que não medem esforços para ameaçá-los. Não à toa, a Polícia Federal foi requisitada para salvaguardar esses trabalhadores que, tecnicamente, cumprem seu papel. Uma desfaçatez que não levará a lugar nenhum. Agora, se for cumprido o pedido extraoficial, poderá conduzir ao cemitério pessoas vítimas de mais uma barbárie induzida.
Para completar (sem, no entanto, esgotar o repertório) a semana, um empresário mega lojista e autodenominado como verdadeiro patriota, com suas lojas emolduradas por réplicas da Estátua da Liberdade (monumento doado aos norte-americanos pelos franceses no século 19), reclamou que, durante as escavações para o erguimento de mais um complexo de compras, artefatos antigos surgiram e a obra foi paralisada para que técnicos do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico Nacional pudessem avaliar o material. Bastou para que o presidente da República ‘ripasse’ do Iphan quem estivesse atrapalhando o progresso e nomeasse uma diretoria nova para o Instituto, em mais um ato de explícita pessoalidade, punível e incompatível com todos os princípios já antes destilados.
Nada a acrescentar. Só até o próximo telefonema a ministros pedindo cabeças ou aparição em rede social exacerbando do poder, corretamente limitado pela Constituição Federal.












