Faces de uma Cuba urgente e digna

Além de ansiar um direito genuinamente humano à liberdade, cubanos têm muito mais a mostrar ao Brasil e ao mundo

Cubanos circulam pela cidade sob o olhar de Fidel Castro

Cubanos circulam pela cidade sob o olhar de Fidel Castro

YAMIL LAGE / AFP

Estive pela primeira e única vez em Cuba há exatos 16 anos, em 2005, fazendo a princípio uma matéria sobre turismo. A convite, fui encarregado de destacar, dentre outros lugares para se visitar, conhecer e desfrutar geográfica e historicamente, as praias de Varadero, estância à 140 km de Havana (capital) que se apresenta como uma Miami caribenha, guardadas as devidas proporções.

Antes de embarcar num autêntico avião dos tempos soviéticos que ainda servia à companhia estatal de aviação cubana, recebi informes ‘soltos’ de que ‘prosperava’ o comércio bilateral entre Brasil e Cuba e resolvi investigar um pouco mais essa pauta paralela de relativa importância entre as duas nações.

Uma vez lá, antes de me enfiar nos números dos negócios, lembro bem de que estava acompanhado de uma colega jornalista brasileira e, entre goles de cuba libres e mojitos, vislumbrávamos a possibilidade de que algo acontecesse com o lendário presidente do país, Fidel Castro (1926/2016). Imaginávamos um atentado, alguma gravidade a lhe acometer (não a morte), qualquer coisa que pudesse sensibilizar as autoridades do Partido Comunista de Cuba a fecharem as fronteiras aéreas e marítimas conosco lá dentro para que, numa cobertura pretensamente exclusiva, pudéssemos canalizar informações aos veículos de informação brasileiros.

Como nenhum canhão do fort em Malecón foi reaceso, nenhuma facada foi dada e a calmaria reinava em absoluto, resolvi dar uma checada com a embaixada brasileira na ilha se tínhamos dados sobre essa relação comercial. E, sim, tínhamos uma lista com mais de 100 itens de exportação para Cuba que contemplava, entre outros insumos, autopeças, carrocerias de caminhão e ônibus, maquinário, peças sanitárias, tintas industriais, chuveiros, garrafas térmicas, plásticos para uso doméstico, embalagens, sapatos, frango e embutidos em geral.

Porém, o que me deixou de boca aberta naquele momento foi saber que, sim, Cuba também comprava mercadorias dos Estados Unidos, protagonista de um elenco de países que impõem há décadas um embargo econômico aos caribenhos comunistas. Do Tio Sam, à época vinham da mesma forma máquinas, geradores elétricos e fármacos veterinários, entre outros artigos. A diferença, para além de uma suposta hipocrisia norte americana, é que não havia financiamento. Fidel pagava a vista aos capitalistas e recebia na ilha o que precisava, com frete barato fruto da curta distância entre os territórios, mesmo separados por uma longa distância em termos humanos, políticos, sociais, econômicos e bélicos. No entanto, cultural e historicamente, sempre estiveram, entre miscigenações musicais e literárias, muito imbricados.

Quando leio e vejo os levantes da população cubana contra o regime político adotado por meio de uma revolução socialista culminada em 1959, com a retirada do poder de um (outro) ditador alinhado até a alma com os Estados Unidos então, penso nas coisas boas e ruins que vi e por lá floresceram.

Em meio às descobertas que este eterno repórter aprendiz fez à época (além de entregar duas matérias, de turismo e de negócios), o destaque foi que Cuba possui um enorme potencial intelectual, artístico e científico e que empresta este seu know-how a todo o planeta, e não pode mais ser ignorada ou vista somente pela cortina puída da verve política.

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