Fazendo a gestão das incoerências
Afinal, conseguimos acomodar, sem incomodar nossa consciência, as ‘falhas’ que acontecem entre o pensar de um jeito e agir do outro?
Eduardo Olimpio|Do R7

Quem nunca fez algo estranho ao discurso, que faça! Assim, se igualando a uma imensa maioria, o leitor que se preza pela correlação dos mundos da ideia e da realidade e pauta sua vida pela amarração entre os valores proferidos pela boca e as ações calcadas nesse repertório, pode experimentar uma das características psicossociais mais democráticas que sobrevive desde sempre entre nós que é a incoerência.
Com toda boa regra ou conduta, há exceções. Talvez milhões de pessoas em torno do mundo não cometam seus pecados pela falta de um elo entre os fatos aos quais elas tomam assento e os pensamentos defendidos. Também não há, aqui, uma apologia às avessas, ou uma torcida organizada para que uma saia por aí atropelando o próprio samba-enredo da vida.
O que me chama a atenção nessa reflexão é que, por mais que critiquemos quem nos parece ser incoerente, não nos livramos dele simplesmente porque é, ele ou ela, hegemônico na sociedade; reproduz modelos hierárquicos que infelizmente assolam populações com forças e ângulos diversos, vive cotidianamente entre nós e também nos cobra aquilo que não entrega mas prega.
Uma tarde dessas vi um motorista acompanhando um ciclista, ambos em baixíssima velocidade, e num dado instante houve uma rápida aproximação entre os veículos que visivelmente não chegou a infringir o Código de Trânsito Brasileiro, que coerentemente ou não, dá como regra uma distância de 1 metro e meio entre a bike e o carango. Isso bastou para que o ciclista iniciasse um discurso, logo rebatido pelo motorista, de que este o colocara em perigo ao se aproximar de sua ‘magrela’.
Olhando um pouco mais de perto, percebi que o ciclista, apesar de portar na traseira de sua bicicleta uma lanterna vermelha piscante, estava sem o capacete e, proferindo contra o condutor do auto não palavrões mas termos fortes e sem parar quase pra respirar entre um desacato e um ‘seu idiota’, não contente com a verborragia que de ambos exalava virou na mesma esquina que o carro segundos depois deste, indo atrás e parando a cerca de 5 metros dele, já estacionado para sua finalidade.
Mas um enorme detalhe gritou aos olhos entre os berros ouvidos de lá e de cá: o ciclista carregava um bebê de não mais do que um ano de idade numa cadeirinha, presa à frente do banco, no quadro da bicicleta! Ao ser confrontado pelo condutor do automóvel por uma certa, digamos, incoerência entre o discurso de que estava se sentindo ameaçado, o ‘sem capacete’ sapecava que o seu possível algoz precisava ‘voltar pra sala de aula’, que era um ‘assassino em potencial’, que ‘não cumpria as regras de segurança’ etc.
A cena na cabeça de cada leitor, fora cores, temperatura do momento e outras peculiaridades, estou certo de que remete a mais fina incongruência entre o pensado e o agido. Cobrar de um o zelo pela segurança de si e de todos no trânsito, no caso, é um lado da história, agora, demandar-se o mesmo cuidado parece não ter reciprocidade, pela falta de capacete nele e no filho (que nem sei se poderia estar numa bike naquela tenra idade...ao menos um gorrinho de lá o protegia, não de uma eventual queda, mas dos poucos traços acima do zero na escala Celsius).
Quem nunca fez ou cometeu uma incoerência, que a pratique sem pudor, pois é mais uma dessas humanidades tortuosas bem ou mal normalizadas. Mas há de se ter consciência de sua cota nesta ‘fraqueza coletiva’ e procurar um caminho mais linear entre o que acredita ser e o que de fato faz.












