Morremos, de vez ou um pouco, na hora do atraso
Ao deixar de fazer o dever no seu tempo, justo ou não, causamos danos quase sempre incontroláveis que atingem a todos os envolvidos
Eduardo Olimpio|Do R7

Eu tenho uma certeza humana inescapável de estar errada. Qual é? A de que não há ninguém que tenha feito de tudo na sua vida dentro do prazo. Atire a última pedra quem nunca deixou para depois, nem que por instantes, algo para fazer. Ou alguém, voluntariamente, foi ao banheiro segundos, minutos, horas depois de aparecer a vontade insuportável de fazer o 1 ou o 2?
Talvez por herança socio-familiar de um comportamento mais ‘flexível’ diante de situações que pedem alguma justeza ou mesmo celeridade na resposta, eu e muitas outras pessoas, em um momento ou outro da vida, deixamos de responder a uma demanda no seu (in)devido prazo. Isso vale também para além das humanidades como instituições públicas e privadas, balcões de reclamação, repartições estatais, virtuais ou as repletas de drywall, acrílicos e álcool em gel.
Há certames que nos pesam muito e pedem uma disposição intelectual, física, psicológica ou econômica que nos impõem uma quarentena necessária para os posicionarmos. Em meio a essas e outras pressões, por vezes a emoção, ao atropelar a razão, nos condena ao que queríamos longe, mas que chega junto justamente pelo calor das medidas tomadas.
Acontece que, em outras instâncias da vida, sem deixar de lado o componente emocional, há uma urgência em se tomar uma atitude, sem delongas, para inibir mortes ou sofrimentos variados. Por exemplo, estas poucas mais de 72 horas que separam a publicação e leitura deste texto da notificação de uma novata variante do SARS-CoV-2 feita por uma equipe de pesquisadores da África do Sul, rebuliços globais trataram logo de ‘bolhar’ países da África austral para tentar barrar a entrada deste recém-descoberto mutante em seus tapetes vermelhos. Decisões rápidas neste sentido ainda serão analisadas para se saber se foram suficientes ou não para chegar a finalidade desejada, mas estão sendo passíveis de questionamentos, éticos inclusive.
Mereceria uma lauda inteira esse debate sobre usufruto das vacinas antivirais contra a covid-19 para certas partes do globo. Ter vacina na África é uma coisa que qualquer avião entrega em poucas horas; já efetivar a vacinação em si é outra, pois requer logística de armazenamento, de distribuição e corrida contra prazos de validade. Mas o ponto aqui é saber que há uma parte de chefes de estado trabalhando de forma descompassada com a urgente sinergia que se espera em prol de uma eficiência desejada no combate ao mal do biênio 2020/2021.
Isso para ficarmos na saúde, mas se dermos um passo ao lado encontraremos políticas de exploração maciça de combustíveis fósseis versus programas de energias alternativas com redução de carbono, novas corridas espaciais com constelações privadas de satélites de comunicação versus lançamentos de artefatos espaciais que produzem milhares de fragmentos na órbita terrestre causando quase uma interrupção destas comunicações ou, num cenário apocalíptico, quase um anel de lixo espacial que nos fará parecidos a Saturno, e por aí vai.
Afora negacionismos que atrasam a vida, literalmente, quando não simplesmente a interrompem, há outras formas de se ler as não decisões que mexem com a maneira de nos posicionarmos no cotidiano dos prazos. Umas das variantes, para usarmos a linguagem pop biológica, é prevaricar, é deixar de fazer o que tem que ser feito. Mestra que é, a prevaricação nos ensina a usar a barriga para empurrar para frente o que não damos conta ou, mais grave, a descumprir o dever a ser feito, provocando dificuldades na sociedade, dores evitáveis, choros idem, desesperos sem necessidade alguma e preocupações até com a continuidade da vida humana na Terra.
Muito comum em sociedades nas quais a vigilância de quem elege míngua ou inexiste quando incidente sobre os eleitos, a prevaricação é uma espécie de ‘herança maldita’ que assola nossa existência geração a geração, nos sabota, nos causa náuseas e acidentes. Pergunto: por que, por exemplo, governos não teocráticos demoram a aceitar (quando aceitam) evidências científicas para tomarem decisões de salvaguardar seus governados, pagantes de impostos, de seus salários e, por último na escala de importância, representados por esse?
O espaço me aperta, mas a latência com que se tomam atitudes importantes na vida coletiva e na individual mata, de vez ou aos poucos. Não precisaríamos morrer antes das possibilidades todas de se viver.












