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Eduardo Olimpio

Nossa bandeira já é vermelha, de sangue

A política do ódio, ou a escalada da violência em meio ao clima eleitoral, se espalha e vai tingir as ruas com mistura fúnebre de cores

Eduardo Olimpio|Do R7

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Eleições estão acirrando os ânimos
Eleições estão acirrando os ânimos

Há cerca de 30 anos a televisão brasileira mostrava uma propaganda de uma lâmina de barbear que dizia algo como: a primeira faz tchan, a segunda faz tchun, e tchan tchan tchan tchan. Inocente aos padrões atuais, na peça publicitária pai e filho compartilhavam, em frente ao espelho do banheiro, momentos de descoberta, de entrosamento e de ternura em meio ao produto que prometia uma barba mais bem cortada com duas lâminas de aço inoxidável.

Naquele tempo, o ex-presidente Fernando Collor de Mello, "macho alfa" da nação e que ostentava ter "aquilo roxo", provavelmente estava a caminho de seu impeachment com o rabinho entre as pernas. Estávamos havia uns sete anos, por aí, de distância das agonias finais do período ditatorial que varrera o Brasil por 21 anos, e começávamos a nos despedir de tempos cinzentos das lâminas que cortavam rente à pele as liberdades individuais e políticas para um despertar suave e com frescor de novos ventos que expressavam, ainda timidamente, a expansão de uma nova consciência de classes da sociedade.


O problema é que certas castas sociais jamais se desgrudaram dos valores e comportamentos gerados no centro do poder armado que tomara o país por meio de um golpe de Estado civil-militar em 1964. Carregadas de ranços e de munição, pessoas forjadas nesta cesta de ovos e alfafa continuaram a achar, ao longo do tempo, que os heróis nacionais foram aqueles fardados desde a proclamação da primeira república, ainda no século 19.

Seus operadores e descendentes, alinhados entre si, se misturaram na sociedade em postos-chave que os levaram, de uma forma ou de outra, ao centro do novo poder civil por meio de eleições diretas e livres, ou foram alçados por apadrinhamento típico do patrimonialismo que fere, como uma baioneta, o peito aberto da liberdade, da justiça social e da civilidade plena alicerçada entre um patamar de educação e outro de direitos respeitáveis, inclusive o sempre minguado humano.


Como chegamos ao atual nível de barbárie à brasileira não é mais novidade. Bastou degenerar a estrutura educacional, picar e remendar a já rasgada Constituição Federal, sangrar instituições e corpos periféricos, armar corações e mãos até os dentes, plantar a ideia do inimigo a ser abatido e não confrontado nas suas ideias, (des)governar mais do que gerir, amaldiçoar e diabolizar quem pensa diferente, entre outras ações, para selar uma escalada de violência intrassocial. Claro, esta não começou ontem, mas vem se multiplicando exponencialmente nos últimos instantes dessa exasperante experiência de ser habitante deste pedaço de continente, sendo brasileiro nato ou não.

Com relação aos acontecimentos trágicos e dolorosos para toda e qualquer gente que ainda tem um pingo de amor dentro de si, o que se deu numa festa de aniversário de 50 anos de uma pessoa que, logo após comemorar sua chegada à metade de um século de vida, tombou morta por tiros engatilhados de discurso de ódio ao "inimigo", foi mais um capítulo de um thriller repetido zilhões de vezes em frente aos nossos olhos e telas. E, como um blockbuster, nos fez cheirar a pólvora, sentir o gosto da ânsia e ouvir os estampidos penetrando nos ouvidos entre mesas e gente caindo.


A política é, essencialmente, uma arte em que o palco é a tribuna onde as ideias contrárias se encontram para um duelo democrático (portanto civilizatório). Sem ela, a barbárie historicamente arrebenta o tecido social no qual estamos costurados e associados mutuamente pela moral. Se operadores da segurança matam e morrem entre si, na frente de familiares entre bolos de aniversário e decoração de qualquer cor ou imagem que seja, o que será de nós, não operadores da segurança, quando o destino fizer o nosso encontro com polarizados atiradores, portadores, posseiros de virilidade e/ou verdades ditas absolutas quando municiadas pelas armas em punho?

As eleições estão acirrando ânimos. A temporada de caça e de matança, que não é de hoje, já se iniciou. Alguma dúvida de que vai piorar? É triste convivermos próximos ao sangue quente que corre nas veias, fervilha, enegrece a vista e produz, em segundos, o horror visível do sangue jorrando para fora das veias, nossas e alheias.

Não estamos num comercial de televisão ou num artifício para vender lâminas de barbear seres barbudos. A primeira lâmina já fez tchan, a segunda está fazendo o tchun. E como será daqui até outubro? Ou depois? Tchan tchan tchan tchan!

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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