O alto custo da sustentação da democracia 

Mais de 20 mil agentes de segurança para garantir que a Casa Branca não se suje com o vermelho do sangue que ainda ferve

Invasão ao Capitólio

Invasão ao Capitólio

Ahmed Gaber / Reuters - 6.1.2020

Daqui a 2 dias, se alguma normalidade não for quebrada por atitudes palacianas ou milicianas, o novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, deverá passar um paninho na cadeira que até então suportava o corpo de Donald Trump para nela se sentar e tomar posse, simbólica e legitimamente, do cargo político mais importante do planeta.

Essa dúvida e a tensão que envolvem a transição de governo em Washington são o reflexo direto dos acontecimentos do último dia 6 de janeiro, data da tomada do Congresso norte americano por apoiadores e grupos pró-Trump. A ocasião foi marcada pela violência, tentativa de intimidação e constatada depredação, cujo somatório foi a morte de 5 pessoas e um fracassado pacifismo na aclamação, pelos senadores, do presidente eleito democraticamente pelo povo via colégio eleitoral.

Claro que esse nervosismo vem desde antes das eleições no final de 2020, alimentado exaustivamente pelas inflamadas retóricas conservadoras que, neste país do hemisfério norte banhado por 2 oceanos e ligado por terra à latinidade, estão misturadas à aversão ao imigrante, ao racismo e, mais contemporaneamente, ao negacionismo em várias camadas.

O problema veio se avolumando sem que Trump se esforçasse minimamente para conter a insensatez e os ânimos de setores da sociedade mais afinados aos seus discursos xenófobos, armamentistas e temerários quanto à saúde pública. Por pouco não vimos uma interrupção do rito democrático por ocasião do aceite de Biden no Senado, protagonizada em massa por aglomerados contrários ao resultado eleitoral recente e a qualquer outro final que não fosse a reeleição.

Não bastasse a vergonha de ser, Donald Trump, um poço de vaidade apegado ao poder político, ele não se vê como um derrotado num jogo com regras claras, ainda que difícil de ser roteirizado. Alegações de fraudes na contagem dos votos por ele levantadas não foram ruidosas o suficiente para amedrontar as instituições, mas causaram críticas inéditas de aliados no cenário internacional e machucaram a imagem de ‘maior democracia do mundo’.

Trump ainda sofre um processo de Impeachment que, levado a cabo ou não, o marcará negativamente na História. Contudo, não podemos deixar de prestar atenção que ele possui um importante capital político alicerçado pelos votos que recebeu, o que pode torná-lo, com alguma sorte, uma liderança na oposição ao novo governo democrata. Ouviu-se falar até na criação de um canal de televisão ‘patrocinado’ ou apoiado pelo bilionário para se fazer um bombardeamento sistemático a Biden, 24 horas por dia.

O legado político do ainda presidente, em termos domiciliares, só encontra algum lastro na filha dele, Ivanka, que acabou nestes últimos 4 anos sendo alcançada pelos holofotes. Não fez, contudo, sucessores fortes nem no seio familiar e nem entre os republicanos; até apoiadores partidários históricos viraram as costas após a invasão ao Capitólio em janeiro. Mas ele, Trump, ainda sonha e aposta na sua volta em 2024.

Torçamos para que estes episódios não se alonguem ao espaço tropical abaixo da Linha do Equador e no tempo de um biênio para que, quando for a nossa vez de escolher o novo presidente, tanto nas altas como nas baixas latitudes se possa ter alguma decência e respeito no processo eleitoral, sem passarmos a humilhação pela qual a sociedade americana passou. Nem eles nem nós merecemos.

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