O conto de fadas em um bilhete premiado

Salvar crianças e adolescentes dos maus-tratos de seus ‘tutores’ pode estar mais ao alcance do que imaginamos

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A infância, como sendo nosso primeiro contato mais lúdico, interativo, interessante e prazeroso com a vida como a conhecemos, deveria ser o lugar, na longa cadeia humana de existência e desenvolvimento, no qual nossas mais belas imaginações e estripulias físicas norteassem uma passagem saudável para a adolescência e, na sequência, a uma vida adulta mais plena, menos caótica do que normalmente vemos por aí e feliz na medida do possível, fora tudo o mais.

Num falso paradoxo, no entanto, em infindáveis exemplos essa mesma infância acaba sendo o inferno pelo qual passam as crianças por nela se exporem a situações torturantes com adultos disfuncionais, adoentados, maldosos e, no extremo, perigosos e criminosos que se apresentam socialmente como protetores. São pais, mães, tutores, padrinhos, madrastas, padrastos, tios, avós, frutos de suas próprias mazelas em muitos destes casos, vividas em suas tenras idades que acabaram por modelar um adulto esburacado, cheio de cavidades não preenchidas pelo afeto.

Essa discussão vai longe e amplia-se à medida em que traçamos novas perspectivas de como a sociedade tem se virado para proteger os pequenos das garras de seus próprios membros débeis e tortos, num eterno exercício de garantir os direitos humanos plenos aos infantes que, por convenção social e legal, são resguardados de trabalhos forçados, de violências física, psíquica, sexual etc.

Disse que não se tratava de um verdadeiro dilema porque as coisas me parecem um pouco mais claras do que se apresentam quando construímos, de modo até que fácil, um olhar mais atento ao redor. Orientando nosso espírito essencial de que as premissas que falei como sendo asseguradas às crianças – e demais que nem citei aqui mas são tão importantes quanto, como direito à educação, saúde, assistência social, recreação, alimentação, moradia, dignidade humana, por exemplo –, bastaria ao cidadão comum e médio de qualquer gênero, rico ou pobre, crente ou ateu, olhar com mais atenção e tempo as crianças com as quais cruzam em todos os lugares a todo instante.

Assim fez uma brasileira que gerencia um restaurante nos Estados Unido dia desses. Ao cruzar seu olhar com uma criança acompanhada pela família no estabelecimento em plena hora da alimentação, notou que o menino estava destoando do entorno. Todos de vestes de calor e o garoto de mangas compridas com a cabeça coberta. Todos se alimentando e o menino não. Questionado pela mulher se estava tudo de acordo com o pedido, o pai acenou que sim.

A funcionária, nada convencida do deleite geral, afastou-se e, de um ângulo privilegiado, mostrou ao menino um papel escrito, em inglês, se ele precisava de ajuda. Ao receber de volta um tímido aceno positivo, ela chamou a polícia e, com o gesto, livrou o jovem dos maus tratos a que estava submetido sabe-se lá com certeza há quanto tempo, comprovados pelos hematomas espalhados no corpo coberto de panos. Padrasto e mãe foram presos e tanto o garoto quanto a irmã foram encaminhados a uma família para acolhimento.

Sem sentenciar aqui neste espaço uma caça desenfreada às bruxas, pergunto simplesmente quantos não estão, agora, à espera de um olhar mais sensível de um estranho, uma palavra, de um bilhete premiado?

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