O direito sem igual a uma vida digna e livre

Viver plenamente a experiência humana é um direito, e a sociedade deve estar atenta aos males causados por qualquer forma de encarceramento privado

Carrinhos de rolimã me ajudaram na socialização, o que não faz parte de crianças no cárcere

Carrinhos de rolimã me ajudaram na socialização, o que não faz parte de crianças no cárcere

Divulgação

Sou de uma geração transicional na qual a tecnologia para ouvir música saiu de uma base analógica recheada de bolachas pretas, redondas e finas que ‘brilhavam’ com um motor elétrico giratório embaixo e uma agulha de cristal em cima para o ‘Spotify’.

Lá na minha infância, estávamos em puro estado sólido da matéria humana que nos proporcionava raladas nos joelhos ou dedos sangrados na tábua do carrinho de rolimã. Éramos indivíduos, mas nos movíamos e nos reconhecíamos como um bando densamente socializado entre nós e perante os outros atores sociais que, na livre tradução, eram os moleques da outra vila.

O importante é a percepção de que tínhamos e gozávamos de uma liberdade de existir como podíamos ou queríamos, com os devidos freios de pai e de mãe sem que isso perturbasse nossas tiradas de onda, rolês, idas e vindas em bailinhos de garagens e campinhos de futebol.

Descrevo este ínfimo trecho da minha infância para, numa tola tentativa, comparar o que vivi com o que viveram e vivem crianças sob cárcere privado, instituído invariavelmente pelo tutor que muitas das vezes é o pai, mas também por tios, avôs e demais parentes.

Na semana passada a polícia libertou uma família que vivia há 17 anos presa em uma casa em Guaratiba, no Rio de Janeiro. Um casal de filhos já adolescentes e a esposa foram libertados das garras do pai, cuja atitude causou danos irreparáveis nas três vidas por ele dominadas. Analfabetismo, raquitismo e demais prejuízos aos dois jovens filhos ficarão para sempre cravados nos corpos e mentes não só deles, lógico, mas das equipes de policiais que atenderam o caso diante da crueldade flagrante.

Infelizmente não foi o último e, nem de longe, estamos livres dessa aberração psicopatológica que oprime, degrada, aniquila e barbariza todo um esplendor de possibilidades do que é uma vida plena em suas possibilidades. Nem falo de prosperidade material, apenas, mas de dignidade ampla e irrestrita dos pequenos porém importantíssimos sabores e saberes da vivência.

Viver a vida é das questões filosóficas e espirituais mais instigantes e abertas de todos os tempos. O que é a vida, a depender do diálogo e seus propositores, carece de uma ‘resposta’ que, independentemente das influências já mencionadas, passa pelas questões da liberdade, da existência, das referências culturais e sociais, da plasticidade das relações familiares e políticas, das observações, do ambiente em que se dá etc.

Mesmo sendo uma narrativa controversa na sua veracidade ou essência, a história de Amala e Kamala mostram dois exemplos não de cárcere privado, mas de privações sociais humanas. As meninas descobertas na Índia nos anos 1920 viviam entre lobos selvagens e deles absorveram um modo de viver animalizado. Andavam de quatro, se alimentavam de carne crua ou apodrecida, bebiam água lambendo superfícies acumulando o líquido na língua, uivavam e interagiam entre si e com seus ‘mentores’ mamíferos.

Moldadas num ambiente ‘não humano’ como a personagem Mogli dos desenhos animados, quando descobertas e levadas para o convívio com demais humanos tiveram muitas dificuldades de adaptação e os relatos dão conta de que nunca conseguiram enquanto viveram, se verdade for a história delas, ‘voltar a serem humanas’, entrando em um espiral de sofrimento, dor e morte prematura.

É lógico pensar que o melhor da vida é ser cuidado e livre. Ignorância, doença mental, ‘alma criminosa, seja o que for, subtrai do viver alheio a essência mais límpida que é a prática das coisas da coletividade humana e a beleza que se estabelece, quando sadia, nessas relações.

Nesse exato momento, nas proximidades do local desta leitura ou mesmo a milhas de distância, pessoas estão se animalizando, definhando como humanos, apodrecendo em vida vegetativa mas não desconectadas de suas sutis esperanças de serem descobertas e salvas de, aí sim, animais, com as devidas desculpas e aspas com relação aos bichos e suas maravilhosas e iluminadas existências.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas