O jeitinho não certo de resolver a coisa não errada
Como instrumento de realização do estabelecido, o ético a se fazer para cada um mostra variáveis nem sempre dignas de se exemplificar
Eduardo Olimpio|Do R7

É aquela velha história que já virou lugar-comum na sociedade, seja ela contada ou citada em qualquer classe social: “o brasileiro precisa ser estudado” ou “agora a Nasa vem”, para distinguir do resto do mundo os que aqui nasceram e que, segundo apontam estas duas ‘máximas’ da cultura popular – digital, inclusive - , fazem ou pensam de forma ‘diferente’, mesmo dentro de nosso meio ambiente ou em relação ao território ou pessoa estrangeira.
Não parece pertinente atribuir aos nativos tão folclóricas características apesar da exclusividade que, como atributo, não é de nossa propriedade pois as especificidades estão em todo o lugar, inclusive aqui. Cada povo que vive neste planeta apresenta maneiras de se viver e reconhecer distintas dos demais grupos humanos, quer pela composição física, quer pelas outras tantas dimensões do ser como meios em que vive, deuses que acredita (ou não), roupas que veste, comidas que ingere, línguas que fala.
Há, no entanto, mais laços em comum entre todos os humanos vivos do que estranhezas, propriamente ditas. Necessidades como respirar um ar para fazer a troca gasosa nos pulmões, excretar fluídos e sólidos e ingerir nutrientes nos fazem iguais no Brasil e no Lesoto, na Ucrânia ou Venezuela.
Num documentário intitulado Alegorias do Brasil (2018), o cineasta Murilo Salles provocou os estímulos de pensadores brasileiros acerca de aspectos vivenciados pelo, vamos assim interpretar, ‘caldo cultural’ que nos atravessa a existência enquanto povo. Nos episódios, discorre-se sobre temas como fé, alegria, conflitos, amor, racismo dentre outras nuances usadas (não esgotáveis) para tentar delimitar alguns parâmetros pelos quais nos posicionamos e reconhecemos perante o semelhante, daqui ou de outros continentes.
Em um dos temas, o tal ‘jeitinho brasileiro’ de ver, de enxergar as coisas, o estado, a religião, o diferente, o pobre, o poderoso, a burocracia, a história que nos fez como sociedade e nos baliza o cotidiano. Lembro de ter escrito aqui neste espaço sobre uma maneira de agir do brasileiro diante de ocorrências aprumadas na ética de cada um diante dos fatos. Para quem se interessar depois leia essa coluna do meu blog.
A atemporalidade desse debate no país nos mostra que, quase como num ciclo infinito e frequente, estamos a assistir a todo instante manobras orquestradas por governantes e governados com a finalidade de atender a determinadas necessidades que a todos bate à porta. Grosso modo, não seria uma questão para ser repetidamente conversada porque a natureza da convivência social pressupõe normas, condutas e punições que visam equilibrar as diferenças entre cada um de nós nesse bolo, e bem sabemos disso.
No entanto, o que assistimos na TV ou lemos por aí nos mostra o contrário, que é a burla, a usurpação, a manobra, o escapismo, o uso torto de alguma lei também sinuosa para agradar um lado, acalmar nervos, aproveitar um poder temporário a fim de se enriquecer, vingar um aliado ou familiar, conclamar massas, nutrir um ódio adversário.
Dar um jeitinho nas coisas pelas vias do possível e, quando não, do impossível é tarefa que exige cálculo, alguma covardia e uma incapacidade de compreender a sociologia envolvida. É sempre algo do que se orgulhar ou se arrepender bem lá na frente, seguindo valores próprios pressupostos.
Seja pela sobrevivência, libertação do sistema (e da burocracia) ou mesmo por gaiatice, lançamos, enquanto coletivo, mão desse recurso para alcançar objetivos. Cabe a nós olharmos o tal jeitinho já citado com a devida crítica quando cabível sem esquecer de que é sempre um artifício de escape do trilho supostamente certo das coisas a serem resolvidas, daí a expressão ‘quando’ antes do ‘cabível’. Empatia pode ser um bom exercício, sem defender o crime, ato este que passa a léguas de distância do debate posto. Para ele, a Justiça; para o jeitinho, a sociologia, a psicologia, a filosofia, a antropologia.












