Eduardo Olimpio O serviço social histórico e o prazer da música 

O serviço social histórico e o prazer da música 

Impulsionada pela necessária leitura da canção em nossa vida, a sociedade aprende a se perceber pela música ao longo de suas trajetórias

Desde sempre alguma melodia embala nossa identidade e momento da passagem pela vida

Desde sempre alguma melodia embala nossa identidade e momento da passagem pela vida

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Quero falar de uma coisa/ Adivinha onde ela anda/ Pode estar dentro do peito/ ou caminha pelo ar...

O trecho inicial da bela canção Coração de Estudante (1983), embalado pela também bela voz e letra de Milton Nascimento (se você, leitor, não o conhece, sugiro esta caça ao tesouro), foi expulso de dentro do peito numa catarse política em que a música serviu de veículo para levar uma mensagem sobre (contra)ditos e (contra)feitos a um jovem durante a ditadura civil-militar brasileira, orquestrada triunfalmente na primeira metade dos anos 1960 e tocada, num final melancólico e quase inaudível, até 1985.

Essa inspiração serve para refletir sobre o papel que as artes exercem na humanidade e, em especial, a música, vertente polifônica que nos ajuda, e muito, a entender melhor este mundão cheio de sons naturais e sintetizados, de discursos sintéticos e procedimentos forjados.

Desde sempre alguma melodia embala nossa identidade e momento da passagem pela vida. De dentro da barriga da mãe, dizem os médicos, já estamos de ouvidos atentos ao que ressoa fora da bolha aquosa. Portanto os sons, a quem nasceu gozando de perfeita acuidade acústica e não sofre nenhum tipo de problema com a audição, estiveram presentes em nossa vida seja lá com que idade estamos a conversar. E, baseado na ciência, é certo que esse tempo de vida ouvindo ruídos e gente extrapola a data de nascimento estampada no RG.

Mesmo não sendo um especialista, sei que, passadas incontáveis gerações, começamos a "reescrever" os barulhos naturais com apetrechos da natureza (pedra, madeira, cipó, folha, pele e pelo de bicho) fazendo objetos com estes insumos que pudéssemos manusear com a boca, mãos, dedos e pé e, deles, arrancar alguma coisa audível. Rearranjando espaços de tempo e organizando a coisa, de algum modo chegamos ao do, ré, mi e seus quatro "irmãos", sistema de notas musicais criado — em cima de um hino a são João — por um monge italiano que viveu entre os séculos 10 e 11.

Percebemos que criações sonoras musicais mudavam nossa vibração perante os intelectos e continuamos a nos servir de música para mexer com as raízes emocionais, libertando e incitando o cérebro a fim de que este alcançasse uma melhor compreensão do entorno, de quem somos, a que servimos, o que nos conforta ou excita a existência. Para sempre fomos e seremos mexidos pela acústica de vozes e instrumentos musicais essenciais ao prazer de existir.

De tempos em tempos, entramos em contato com uma criação e alguma perpetuação de ritmos, intérpretes, coreografias, figurinos, narrativas, tecnologias e (des)construção da linguagem que dão um "tom" a um momento da sociedade. No Brasil, da "era de ouro" das rádios (primeira metade do século 20) aos auditórios dos programas de TV (na segunda metade), aprendemos ou mesmo assistimos a uma enormidade de artistas e suas estéticas a descrever quem éramos, como amávamos, vivíamos, subjulgávamos. Agora, nas mídias sociais digitais e nos aplicativos de streaming de áudios, o consumo de música está democrático e definitivamente massificado, individual ou coletivamente, nos fones de ouvido que nem mais fio trazem. E é das redes sociais e dos aplicativos que nos recodificamos como ouvintes de música, nem sempre boa, mas espelhando como hoje valorizamos ou não o legado e origens.

Fã-clubes ainda existem porque, de Emilinha Borba a Anitta, a necessidade das pessoas em se sentirem próximas, quando não as próprias divas de cada momento, persiste no imaginário do amante daquele modelo de sucesso e de vida.

Para além dessas certezas, indiscutível é o gosto do público por uma ou outra vertente musical. Muita coisa influencia a assimilação de certos valores pessoais para que possa haver uma sintonia entre quem produz a música e quem a consome. Antigamente essa relação se dava em um intervalo de tempo bem maior, pois não existiam meios de fazer chegar ao ouvinte, a não ser em saraus ou shows, alguma canção que não tivesse prensada num disco de acetato lido por uma agulha ou numa fita magnética lida por um cabeçote.

Hoje compõe-se em conjunto e simultaneamente com criadores em lugares diferentes no mundo e variadas línguas para, na sequência, por meio de alguns cliques do celular ou notebook, fazer chegar a milhões de ouvidos mais uma polifonia a adentrar nossos tímpanos para adestrar nossa irracionalidade.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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