O sinal invertido no sentido das coisas
Surfamos na crista da onda do caos vivencial que suga tempo e força em momentos de negação diante de situações consagradas
Eduardo Olimpio|Do R7

Que o mundo anda louco, disso não há dúvidas, pelo menos entre os supostamente sensatos terráqueos que, hoje, se contam na ponta dos dedos de um extraterrestre spielbergiano.
Constatar o adoecimento físico e psíquico dos filhos da mãe-terra é tarefa fácil mesmo aos não iniciados em seitas, ordens ou irmandades. Não precisa nem sair às ruas para encarar essa dura realidade que se exubera ainda mais em recantos distintos como Paris ou Adis Abeba, ou nas literaturas fantástica, biográfica e histórica, pura. É nas cidades e nas impressões retidas pelos sentidos que o caos sente facilidade em se instalar, sem arredar pé sequer um minuto, mostrando seus podres e fedidos influencers que desafiam sociologias e a medicina há décadas, ao menos.
Como listar as demências é tarefa já feita pela Organização Mundial da Saúde e Organização Internacional do Trabalho, não é preciso se ater cientificamente nisso. Há, no entanto, um ponto fora da curva de qualquer patologia descrita que insiste em nos rodear e que deve estar relatada em pergaminhos e pastilhas de silício, pois creio que sejam ancestrais suas primeiras identidades e estão presentes até hoje. Aliás, muito.
É a tal inversão de valores. Ô, coisa irritante essa certeza do contrário em seu valor absoluto de rigor científico quase nulo. Sim, a ciência sabe de suas contradições e regularidades que constituem um eixo de seu desenvolvimento, baseado na premissa da replicabilidade de algo a partir do momento em que este algo fora constatado, seja na forma de descoberta, de invenção ou criação. Noutras palavras, torna-se concreto, ou verdadeiro.
O legal disso é que ninguém de fato é dono deste legado verídico e palpável sob o ponto de vista das certezas, pois mesmo estas podem, com o passar do tempo ou dos fenômenos ambientais e ferramentais, ser desfeitas ou mesmo trocadas por outras certezas, desde que cumprindo o rito descrito. Nisso, além de tudo, mora uma beleza em si.
O problema acontece quando estamos fora desse ciclo lógico e a perturbação se impõe em cima de fatos que, podemos dizer, a ciência já os tenha ‘catalogado’ como consagrados. A vacinação, por exemplo, que atualmente no mundo inteiro é a vedete científica mais discutida do Ártico à Antártida por conta da covid-19, seria uma ‘vítima’ de inversão de valores. Mesmo depois de revoltas sociais aqui no Brasil e em muitos outros pedaços de chão, o que parecia estar sacramentado como valor da sociedade mundial, começou a fazer água diante de populações e segmentos sociais influenciados por ritos e narrativas infames. Todo o resto é sabido e noticiário.
Quer um exemplo? Neste último domingo, uma juíza do Distrito Federal negou uma ação que pedia a prisão do jornalista William Bonner por conta de sua ‘apologia’ à vacinação de crianças no combate que se faz à pandemia da covid-19 mundo afora. Seria o comunicador, na ação proposta, membro de uma organização criminosa que, nas palavras da peça, ‘cometeria os crimes de indução de pessoas ao suicídio, de causar epidemia e de envenenar água potável, de uso comum ou particular, ou substância alimentícia ou medicinal destinada a consumo’.
O pior é que isso não se finda com a negação da magistrada porque a fertilidade que faz germinar a inversão sem razão alguma de ser invertida é quase um céu sem limites e um inferno com carvão infinito a queimar. O mundo não para e, nas suas engrenagens que fazem dele um moto-perpétuo, coisas desse tipo, a inversão de valores, lubrificam nossas catracas e sistemas de corrente que, loucamente, ainda movem essa massa para frente sei lá como. É de se estranhar que ainda estejamos por aqui, feito baratas sobreviventes ao bombardeio de radiações disruptivas da compreensão, da razoabilidade e demais formas harmônicas de relacionamento.
Sim, as baratas existem, e sustentam esse globo girando-o e causando a tontura e a falta de equilíbrio nos atos. E sim, o contraditório produz algum progresso, mas a simples negação sem prova que a baste, esta só induz ao erro e atravanca o continuar da vida, esticada e melhorada pela vacinação, inclusive.












