Os dois lados da coisa toda
O despertar de um amor que deriva da mesma fonte da dor e do horror
Eduardo Olimpio|Do R7

Uma das características de qualquer fato narrado por um jornalista ao leitor, telespectador ou ouvinte é que o conteúdo do que é contado será absorvido de maneira diferente por cada um desses públicos, e assim será também entre os membros de cada grupo receptor. Isso não acontece só com profissionais da comunicação. Mesmo não sendo um destes, ao (re)contar a história, qualquer outro a fará de um único jeito, o seu, mas será compreendido de formas singulares.
Isso para mostrar que seja qual for a coisa apresentada para uma pessoa, há no mínimo duas ‘leituras’ disso; a de quem testemunha ou coleta a informação na fonte e, assim, a formata à sua maneira quando retrata o fato (buscando, se jornalista for, uma isenção quase sempre inexistente), e a de quem recebe e interpreta o conteúdo com seu repertório preexistente.
Se tomamos esse exemplo para os acontecimentos pequenos da vida ou aos que mexem com nossa dinâmica social como o surgimento desta pandemia, ao analisarmos de e para fora podemos vislumbrar outro olhar ao que, aparentemente, só nos mostra um lado.
Quem acompanha mais ou menos o noticiário deve ter visto que muitos profissionais da saúde que estão no tal front de combate contra o mal do momento, mesmo preparados (e bem protegidos, quando as circunstâncias permitem) também tombam vítimas dele. Mundialmente são milhares de auxiliares e técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos, dentre outros, que adoecem e são retirados da infantaria, vivos ou mortos.
A tarefa de lidar com as doenças em geral é tida na humanidade como uma das mais respeitadas e divinizadas. Não é para menos, se analisarmos o objeto e o objetivo do ofício destes trabalhadores: simplesmente a vida de cada um de nós.
Pois bem, com a alta exposição midiática destes profissionais não é difícil imaginar que, mesmo na dureza da batalha diária pela qual passam essas pessoas, é natural que despertem em crianças e adolescentes a vontade de seguir tais carreiras quando saírem para a vida adulta.
É quase automático e natural que esse protagonismo todo deve estar influenciando jovens a seguirem estudos para se tornarem ‘divinos’ como médicos (psiquiatras, geriatras, infectologistas, pneumologistas, pediatras), enfermeiros, biólogos, biomédicos, fisioterapeutas, psicólogos, cientistas em geral e, por extensão, gestores de saúde, de finanças, fabricantes de insumos para o setor (medicamentos, equipamentos, mobiliários) e analistas de dados e de comportamentos sociais.
Não vi nada a respeito disso ainda de forma mais analítica, mas por certo alguma coisa já foi ou será publicada nesse sentido. A menos que a neurose coletiva já constatada há muito tempo - principalmente nos grandes aglomerados urbanos - não tenha cura e o terrorismo emocional seja a mola propulsora dos encaminhamentos sociais e políticos, os meios de comunicação e até mesmo as redes digitais têm matéria-prima para mostrar que nem tudo está perdido na humanidade.
Ou seja, há o outro lado da dor, que não está associado à morte e ao desencanto e que deve ser igualmente revelado, sem o ufanismo barato mas apenas contado e mostrado, como depoimentos de crianças que, com brilho nos olhos, desejam ajudar o próximo na sua ainda ingênua fase do faz-de-conta. Estas e outras epidemias do bem devem entrar rapidamente sob os mesmos holofotes que iluminam o terror.












